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sábado, 26 de junho de 2010

PALAVRA PERDIDA




Ao meu pai


Eu ando atrás da palavra, eu juro que ando. A que talvez esteja no dicionário que outro dia mesmo você me perguntou se deveria ter em casa, para seus versos e rimas. Lembra, num dos últimos emails que você me passou, o assunto era o dicionário. Foi quando você – bem a seu modo, sem muita cerimônia – resolveu ficar mudo. E palavras costumam perder serventia quando se emudece.

Desde então muitas delas, além de tornarem-se inúteis, ganharam sentido diverso. Se me falavam em traqueostomia, eu entendia seresta. Se me falavam em sedação, eu entendia bravura. Se me falavam em hospital, eu entendia passarinho. Dos raros de voo e trinado. Um Uirapuru, quem sabe? Se me falavam em cateter, eu entendia realejo, num dialeto de Babel que aqueles homens e mulheres de aventais azuis e cheiro de éter nunca compreenderiam. Sabia que havia ali, num canto de boca cheia de tubos e respiradores, o verbo-senha, o pé-de-cabra de um milhão de portas, o código de que você foi guardião por 86 anos.

Essa palavra, que você não consegue mais pronunciar, eu seguirei buscando. Vou atrás do tal dicionário, quem sabe eu a encontre por lá. Gritarei sozinho, mas bem alto e por nós dois, essa palavra aos ventos todos. Sei que isso não te deixará menos mudo, mas você não estará tão surdo que não a possa escutar.


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1 Comentários:

  • Excelente, Marcelo!

    Esta é uma defesa que o ser humano encontra diante de uma dura realidade. E você, escritor e poeta, encontrou-a da forma mais bela.

    No início do meu blog, uma das primeiras postagens, eu travo um diálogo semelhante. Talvez um tempo antes do seu. Meu pai também com 86 anos e com Mal de Parkinson, depois de entubado emudeceu. Depois da gastrostomia, piorou. Mas foram 10 anos em que eu dialogava pelo olhar dele e pelas mãos. Um diálogo que se eu soubesse, teria aprendido enquanto havia saúde nele, uma outra forma de comunicação. Mas não havia.

    Teria sido melhor entender traqueostomia como seresta e ver os médicos e enfermeiros como bailarinos ou atores de uma peça de teatro, na qual eu seria espectadora.

    Há momentos na vida em que a palavra que tanto nos serve, não tem mais razão de existir, sequer se faz presente. Buscar a palavra, talvez seja o próprio código, ou esforço.

    Ele ouvirá certamente.

    Belíssimo!

    Parabéns!

    Mirze

    Por Blogger Mirze Souza, às 26 de junho de 2010 06:50  

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