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sábado, 17 de junho de 2017

ALBERTO E AYRTON




- Santos Dumont! O senhor é o Santos Dumont, né?
- Em carne e osso. Quer dizer, sem carne e sem osso. Você quem é?
- Senna. O Ayrton, sabe?
- Sena? O rio da minha lindíssima Paris?
- Não, não. O rei de Mônaco. Béco, para os íntimos. O piloto, tricampeão da Fórmula 1. O namorado da Adriane Galisteu...
- Agora, puxando pela memória, acho que já ouvi falar de você, sim. Faz pouco tempo que desencarnou, não é?
- Vinte e três anos... o senhor chama isso pouco tempo?
- Ah, foi outro dia mesmo. Pra quem já está aqui desde 1932, você nem gelou a carcaça, meu rapaz. Lembro da minha hora como se fosse hoje. Estava no Guarujá, chateado com o que andavam fazendo com a minha invenção, e  resolvi que não queria mais ficar lá embaixo. Aliás, sempre me senti mais à vontade aqui em cima.


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- Pois é. Se naquele dia fatídico já existisse um cockpit feito com material de caixa preta, talvez eu estivesse salvo. Difícil me acostumar com a ideia, vim pra cá cedo demais.
- Deixa de se lamentar, isso só piora as coisas. Mas me diz, como é que me reconheceu por essas bandas?
- O chapéu, o terno, o bigode... como não poderia deixar de ser, é claro que o senhor é nome de aeroporto no Brasil. Um dos maiores que temos por lá. 
- E você deve ser nome de rodovia.
- Sim. Mas o senhor é mais herói que eu, e é nome de estrada também. Duas, por sinal. Além de escolas, ruas, praças. Tem até uma cidade chamada Santos Dumont. 
- É, onde eu nasci. Chamava-se Palmyra, depois rebatizaram pra me homenagear. Fiquei sabendo por alguns irmãos espirituais. 
- Então. Cidade com o meu nome, por enquanto, não tem nenhuma. 
- Meu caro Ayrton, não é só você que guarda mágoa desse país ingrato. Outro dia mesmo estavam jogando truco por aqui o Duque de Caxias, o Dom Pedro I e o Tiradentes, amaldiçoando as últimas gatunagens de Brasília. Diziam que se soubessem que ia dar no que deu, não teriam movido uma palha.


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- Sabe de uma coisa, meu jovem? Me dá nos nervos ficar a eternidade toda vendo esses anjos, com essas caras gordas e barrocas, batendo asinha pra lá e pra cá, sem rota de voo definida. A coisa aqui ainda está nesse tempo, de asinha nas costas. Até mesmo o avião, se você for ver, já é algo bem ultrapassado. Inventei essa traquitana em 1906. Tudo bem que o 14-bis era feito de seda e bambu e que a tecnologia aeronáutica evoluiu muito daí pra frente, mas é arcaico demais como meio de locomoção. Não sei se sabia, mas eu, o Einstein e o Steve Jobs estamos concluindo um protótipo de transporte na velocidade da luz.


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- A Asa Norte e a Asa Sul. Tudo pelos ares, num ataque-surpresa. Que me diz, Ayrton?
- A sua raiva de asa é grande mesmo, Seu Alberto. 
- Temos que destruir tudo, pra não correr o risco de sobrar algum corrupto vivo. Sabemos que nessa operação-limpeza vamos matar um monte de pessoas inocentes, mas os bons viriam para o céu de qualquer jeito. E vão dar graças ao Pai por se livrarem daquele inferno.
- Isso, com certeza.
- Pra dar tudo certo, vamos precisar de um piloto experiente e habilidoso. É aí que você pode ajudar. Afinal, velocidade é o seu negócio. Ainda que a velocidade, no caso, seja a da luz. 
- Nossa, deve ser demais essa sensação. E eu achando, lá embaixo, que 350 por hora era o máximo da adrenalina.
- E então, podemos contar contigo?
- Deixa eu amadurecer a ideia, a gente vai se falando. Me dá seu chapéu de lembrança do nosso encontro?
- Só se você me der seu capacete. 




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sábado, 3 de junho de 2017

DINHEIRO EM ESPÉCIE



Espécie em extinção (Montantis sumidus)
Por incrível que possa parecer, a espécie em extinção é a mais facilmente encontrada na natureza. Em suas inúmeras variantes, tudo leva a crer que seja originária do Brasil - já que aqui encontra as condições ideais para se reproduzir. Sua ocorrência, entretanto, é comum nos cinco continentes, em ecossistemas capitalistas, socialistas, democráticos, anárquicos ou ditatoriais.

Espécie ululante (octópode da família Moluscus corruptum)
Tem seu habitat natural em sítios de Atibaia, onde alterna sua presença entre os lagos de pedalinhos, antenas de celular da Oi e adegas bem fornidas. Como todos os anfíbios de sua ordem, mostra-se perfeitamente à vontade quando está com as mãos molhadas mas também adapta-se com facilidade a solos arenosos da indústria da seca, desde que não lhe falte o necessário suprimento alcoólico. 

Espécie aécica (Nevis imundícius)
Defende-se dos inimigos naturais atacando vorazmente as reservas públicas, embora afirme que jamais tenha feito fortuna na política. Suas características camaleônicas, que pemitem que se camufle para confundir seus predadores, fazem dele um autêntico exemplar do gênero tucanus peéssedebensis, praga que assola o planalto central.  

Espécie anta (Dilmatis butijaniensis)
Tipo de jiboia que hiberna anos enquanto digere lentamente o erário. Animal de estranhos hábitos, tem a peculiar característica de assinar sem ler. Ainda que tenha desenvolvido uma forma rudimentar de fala ao longo de milênios, quando abre a boca de incisivos avantajados só balbucia frases sem nexo.

Espécie morcego (Foratêmeris dráculum)
Dá o bote (ou o golpe, como insistem alguns) sempre à noite e entre os jaburus. É conhecido o seu caráter misógino, por não admitir em seu bando nenhuma fêmea. A criação de mesóclises de grande efeito retórico, para posterior revoada na mídia, é o passatempo predileto desse sorrateiro e anacrônico exemplar do gênero Vices nocomandus.

Espécie mula (Asnus laranjínicus)
Leva e traz no lombo calejado malas e mais malas de dinheiro vivo. Sua reduzida massa encefálica talvez explique o fato de jamais conhecer o teor daquilo que transporta. Faz parte do baixo e médio escalão da cadeia alimentar e acabou por se adaptar à reprodução em cativeiro, uma vez que sempre acaba cumprindo pena no lugar daqueles que encomendaram seus serviços de delivery. 




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Imagem: dailymail.co.uk



sábado, 27 de maio de 2017

BANHEIRO RIMA COM DINHEIRO




Ele, particularmente, não via sentido nenhum nessa história de ler no banheiro. Seja no fato de ir ao WC para ler, ou de ler enquanto  não se resolvem pendências fisiológicas de naturezas diversas.

Ainda que até hoje se desconheça exatamente o porquê de se transformar vaso sanitário em poltrona de biblioteca, a verdade é que o hábito parece inerente à raça humana. Dessa constatação, veio a pergunta: como ganhar dinheiro com isso?

Uns quatro dias depois apareceu a resposta, no banho, ao ensaboar o sovaco esquerdo. "Lógico!, gritou ele. Histórias no papel higiênico!!!"

Enquanto negócio, a coisa era realmente promissora. Não só pelo ineditismo do produto, mas também pelo previsível aumento desenfreado do consumo. Se, para uma pessoa, cinquenta centímetros de papel é medida suficiente para determinada função, com a novidade a metragem média poderia multiplicar-se de maneira espetacular, dependendo do interesse do usuário e da capacidade da história em segurar sua atenção. 

A "plataforma de leitura" mostrava-se suficientemente versátil para os mais diversos perfis de público. Pessoas não muito afeitas à leitura poderiam adorar charges de dois ou três quadrinhos, mais visuais e com pouco texto. Os amantes de obras-primas da literatura universal teriam à disposição a versão integral do "Dom Quixote" condensada em um rolo de 30 metros, ainda que em letra de bula. Já os praticantes de leitura dinâmica ficariam à vontade para devorar a Encyclopaedia Britannica em uma sentada. Literalmente.

As possibilidades de adequação seriam infinitas. Para motéis, desenhos e fotos pornográficas, relatos picantes e classificados de sexshops e casas de swing. Para asilos, figuras com pontos de crochê e táticas invencíveis no dominó. Para colégios, colas prontas para provas de todas as matérias. Pensou também em uma versão com palavras cruzadas, mas desistiu do intento pela necessidade de caneta e pela fina espessura do papel.

Mais tarde, pesquisando no Google, descobriu que seu lampejo genial não era tão inédito quanto imaginava, nem tão lucrativo quanto parecia. Três ou quatro visionários já haviam se aventurado pela empreitada, sem grande sucesso. Um dos projetos, que chegou a ser implementado nos Estados Unidos no final dos anos 70, contemplava um mecanismo perverso de fidelização do consumidor: a história chegava ao auge do suspense no final do rolo e terminava nos primeiros metros do rolo seguinte, coagindo o usuário à compra de fardos extras. Na época, os gringos acharam que ficariam milionários, mas erraram feio. E estão até hoje enxugando as lágrimas com o estoque encalhado de papel.



Imagem: geektoypia.com
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sábado, 20 de maio de 2017

LADRÃO PREVENIDO VALE POR DOIS



Se você pensa que quem arrisca a vida é bombeiro, PM da favela da Rocinha ou dublê do Chuck Norris é porque nunca foi ladrão na vida. Nossa categoria deveria ter direito a adicional de insalubridade, tamanhos os riscos a que nos expomos.

Em nossa estafante labuta, os verdadeiros roubados somos nós, profissionais da contravenção. Estamos o tempo todo a um passo do Instituto Médico Legal, e por ameaças muito mais letais do que a ação da polícia. 

Não estou nem aí se deixo ou apago minhas digitais no local do crime. Uso luvas (aliás, duas em cada mão, para a eventualidade de uma delas arrebentar) com a intenção de me precaver de verminoses, dermatites, eczemas, micoses, sarnas, gripes e até mesmo lepra, dependendo do naipe do assaltado que sou obrigado a encarar para ganhar o pão de cada dia. 

O mesmo vale para o capuz. Tudo quanto é meliante veste para não ser reconhecido pelas vítimas ou pelas câmeras de segurança, mas para mim isso é o que menos importa. Uso para evitar vírus, especialmente do início do outono até o fim do inverno. E, mesmo no verão, só visto capuz de lã. Vai que a temperatura muda de repente, né? Nunca se sabe, esse nosso clima é cada vez mais louco e a meteorologia não acerta uma. 

Quando o assalto é na rua e levo o otário até o caixa eletrônico para sacar o dinheiro da conta, me embrulha o estômago olhar para o visor do equipamento. Aquelas marcas de dedos no vidro, todo engordurado pelo manuseio de milhares de clientes... fico imaginando a orgia de microorganismos que é aquilo, uma explosiva arma química de efeito devastador. O sujeito que sem querer coloca a mão na boca após ter feito o saque leva, junto com o dinheiro, umas duzentas doenças pra casa. E se no visor é assim, quase vomito ao pensar no horror que deve ser o leitor de biometria. A camada de gordura ali justifica uma lipoaspiração ao final do expediente. Arghh!!!

Mas a pior parte vem quando o assaltado entrega a grana pra gente. Nada é mais sujo do que papel-moeda, mesmo não sendo de caixa 2 e nem tendo passado pela cueca de ninguém em Brasília. Eu diria que não há diferença entre manusear uma nota de real e dar um mergulho no Tietê. Sinceramente, não há dinheiro que pague o nojo das bactérias. Comigo o negócio é sem contato manual, por isso já obrigo a vítima a colocar o dim-dim dentro de um ziploc para afastar qualquer possibilidade de contaminação.

Se o assaltado reage e sou obrigado a mandar o dito cujo conhecer Nossa Senhora, eu não descuido: trago sempre na minha maleta de trabalho um traje completo de escafandrista, para evitar ser atingido por gotículas de sangue na hora de estourar os miolos do infeliz. Vai que eu morro infectado. Além do mais, mancha de sangue na roupa dá o que fazer pra tirar. 


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sábado, 13 de maio de 2017

SAUDADE DOS MILHÕES*



Se há uma coisa que não falta para este humilde fardado da Guarda Municipal é experiência. Sou macaco velho, dos idos da radiopatrulha de fusquinha. Já sonhava em trabalhar na polícia desde o tempo em que a minha única munição era bala Chita. Isso lá no Belenzinho, meados dos anos 50. Minha coleção de revólveres de espoleta era famosa em todo o quarteirão. Me desfiz dela aos prantos, ao receber uma proposta irrecusável de um governador do Acre para equipar os coldres daqueles guardas-manequins-fakes vestidos com uniforme policial, que ficavam nas vias expressas e próximos aos camelódromos de Rio Branco. 

Lembro como se fosse hoje da Operação Propi-Corn, uma das primeiras de que participei. Os milhões eram escondidos disfarçados de inocentes piruás no fundo de saquinhos de pipoca, servidos sem mãos a medir nas festas juninas da Granja do Torto. Gatunagem da grossa. Chegamos com os cães farejadores e os meliantes engravatados, alguns deles com ridículos bigodes de carvão e remendos nos ternos Armani, foram pegos de surpresa com a propina ainda quentinha, saindo da panela. Dois ou três ainda tentaram, sem sucesso, se evadir subindo pelo pau de sebo. Mas recuperamos os milhões. Não digo tudo, mas a maior parte, já que um terço das espigas acabou virando curau e pamonha naquele malfadado São João brasiliense.

Depois foi a vez de desmantelarmos uma organização criminosa que fabricava e distribuía bafômetros com selos falsos do Inmetro. A ideia dos bandidos era fornecer bafômetros descalibrados para menos, no intuito de aprovar no teste tudo quanto era bêbado, mesmo aqueles beirando o coma alcoólico. A engrenagem da quadrilha era toda financiada por grandes marcas de bebidas destiladas e fermentadas. Com todo mundo passando no teste, a confiança dos cachaceiros nos bafômetros complacentes aumentava – junto com o consumo, naturalmente. 

A repercussão foi enorme no dia em que fizemos o flagrante. Deu até Jornal Nacional. Todos do nosso grupo foram entrevistados, e dias depois fomos condecorados com medalhas de bravura. Fechamos uma churrascaria na Marginal pra comemorar, bebemos além da conta e, ironia dos ironias, fomos pegos numa blitz de bafômetro. Em fila indiana e trançando as pernas para passar pelo aparelho, nenhum de nós estava em condições de explicar ao pessoal da Patrulha Rodoviária que éramos guardas também, o que poderia nos dar a prerrogativa de escapar do exame. A sorte é que os bafômetros eram do lote falsificado e fomos embora felizes e ziguezagueando, tirando fina de pedestres, ônibus, postes e muretas de concreto. 

É, meu querido. Bons e bucólicos tempos, em que perseguíamos quadrilhas que mexiam com milhões. Pobres e minguados milhõezinhos. Dinheiro de pinga, se comparado aos bilhões de hoje. E pinga tão fraquinha que bafômetro nenhum pegava.



*Esta é uma obra de ficção.


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sábado, 29 de abril de 2017

MUTIRÃO DO TABULEIRO




O Governo Federal, dando continuidade ao Programa "Espaço do Cidadão", promove em nível nacional o Primeiro Grande Mutirão do Tabuleiro.

Em entrevista coletiva, o Chefe da Casa Civil afirma: "Imagine o espaço que ocupam caixas e mais caixas de jogos de tabuleiro dentro de uma casa de padrão médio, sendo que cabem milhares de games em qualquer smartphone de camelódromo. E para baixar de graça. Está mais do que na hora de tirar esse entrave do dia a dia da família brasileira e dar espaço para uma vida mais confortável a todos".

Ele continua: "O Governo entende que é direito inalienável do contribuinte chegar em casa depois do trabalho, tomar o seu banho, petiscar o seu torresmo com Cinzano e jogar uma partidinha de gamão antes de se enrolar nas cobertas. Mas temos que modernizar o nosso Código Civil. A lei que trata do jogo de tabuleiro em ambiente doméstico ainda é do tempo do Getúlio Vargas. Precisamos atualizar isso, dando aos brasileiros a prerrogativa de trocar os velhos tabuleiros de madeira pelas versões eletrônicas, muito mais atraentes. Nosso Brasil mudou e a legislação tem que acompanhar essas transformações."

O Chefe da Casa Civil esclarece que os jogos deverão ser entregues nos postos de arrecadação de cada cidade. Todos serão incinerados, e a previsão é que sejam recolhidas em torno de 5 milhões de caixas de xadrez, damas, trilha, ludo, War, Detetive, resta-um, Banco Imobiliário e congêneres. 

O Programa "Espaço do Cidadão" não para por aí. "Mês que vem será a vez dos livros - esses trastes acumuladores de ácaros e de traças. E no caso dos livros iremos premiar as pessoas que trouxerem para o mutirão maior quantidade dessas porcarias que ameaçam a saúde pública. Teremos dois critérios: o número de volumes arrecadados e o número de páginas por volume. Por exemplo, "Guerra e Paz", "Dom Quixote", "Os Miseráveis" e "A Montanha Mágica", que têm milhares de páginas, encorpam muito mais os fogueirões que iremos fazer. Então é justo que quem os trouxer tenha direito uma recompensa maior do que aquele que entregar um ou outro livro fininho de literatura infantil ou do Paulo Coelho, compreende? Ainda estamos estudando que tipo de prêmio será esse, pois queremos incentivar a participação efetiva da coletividade. Em tempos de Kindle e e-readers chineses a menos de 150 reais, não tem cabimento o sujeito manter uma biblioteca em casa. Lembro mais uma vez que o nosso objetivo maior é dar ao cidadão o espaço que ele merece". 

A última, porém não menos importante etapa do Programa, será a eliminação de toda a papelada burocrática no relacionamento do cidadão com o governo nas diferentes esferas - municipal, estadual e federal. "Do pagamento de uma conta de água à declaração do Impostos de Renda, tudo poderá ser resolvido pelo celular", promete o ministro.  



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sábado, 22 de abril de 2017

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA DO SALVA-VIDAS





- Pronto, Centro de Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois nossas linhas estão congestionadas.
- Tô sem vidas pra salvar. Antes tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?
- Entendo sim. E como entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje. Ontem foram trinta e cinco.
- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo, banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.
- Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?
- Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um gordo só. Bem ou mal estaria honrando o salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, um verme sem serventia, um chupim do orçamento da prefeitura. A senhora, como contribuinte, não se sente explorada? Por favor, me ajude, faça alguma coisa.
- Meu amigo, por acaso a culpa é sua se está tudo bem? Você saberá cumprir o seu dever, caso aconteça alguma coisa. Por que você não faz um curso de aperfeiçoamento, um módulo mais avançado pra sua função? Sei lá, ou então abra-se a novas possibilidades de relacionamento... uma respiração boca-a-boca com alguém atraente do sexo oposto, sabe como é, salva-vidas também é gente.
- Sei, sei. Vem ver as coisas que me aparecem pra salvar, vem ver. Isso quando aparece, né. A praia aqui é de periferia, minha filha. É a maior relação dentadura por banhista da América Latina.
- Você também podia pedir transferência pra algum lugar com mar mais agitado, tipo aquelas praias de surfistas em Saquarema.
- Mais alguma alternativa?
- Temos sugerido com frequência a pintura de paisagens marinhas em aquarela. O único problema é o salva-vidas se distrair demais com o hobby e não prestar atenção ao serviço.
- Chega, essa foi sua última chance. Não me convenceu, o buraco no meu caso é mais embaixo.
- Pelo amor de Deus, mude de ideia. Se não por você, pelo menos por mim.
- Como assim?
- Nosso índice de reversão das tentativas de suicídio nos últimos seis meses é de apenas 4,9%. Caso não consigamos melhorar esta estatística, nossa equipe toda será demitida. Você não está mesmo querendo salvar vidas? Pois então, sua oportunidade é agora. Salve a nossa, moço!
- Jura que é verdade? Não está dizendo isso só pra dar uma levantada na minha autoestima? Este argumento está me cheirando a script decorado aí da equipe de atendimento.
- Onde você está no momento?
- Estou aqui, no meu posto de observação, falando do celular. Mas com um cano de revólver enfiado no outro ouvido. Tem até um pessoal lá embaixo olhando desconfiado pra mim.
- Calma, segura a onda.
- Bom, isso é tudo o que eu queria, se houvesse alguma pra segurar.
- Moço, olhe pra trás. Guardas-noturnos, ex-boxeadores, enroladores de bobinas de transformador, mulheres barbadas de circo e outros suicidas contumazes bem que gostariam de estar no seu lugar, só aí, de frente pro mar... considere-se um privilegiado.
- Poupe o seu latim para um caso menos perdido que o meu. Além do mais, meu crédito está acabando.
- Me dá seu número que eu ligo!
- Vai dar caixa postal.


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