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domingo, 12 de agosto de 2018

QUEBRA DE SIGILO FRIGORÍFICO



Fruto de esforços conjuntos de três organismos federais, o governo de Pitombas deu início à chamada "Operação Linha Branca".

A diferença desta para outras operações anteriores é que passa a ser considerado, como sinal evidenciador de riqueza - e eventualmente como possível indício de sonegação - o interior das geladeiras domésticas. A depender do que for encontrado dentro do refrigerador, pode-se deduzir se a renda do dono do eletrodoméstico é ou não compatível com aquela declarada ao fisco.

A fiscalização se dará por duas formas. Uma por agentes com mandado judicial para efetuar busca; nesse caso, o contribuinte em questão precisa estar indiciado em algum inquérito. A outra forma será por meio de flagrante fotográfico: pequenas câmeras serão instaladas nas geladeiras e captarão, em dias e horários desconhecidos ao contribuinte, o interior dos equipamentos e os alimentos e bebidas neles conservados.  

A instalação das câmeras será compulsória e se estenderá em etapas regionais, ao longo de cinco anos. O contribuinte que se recusar a abrir as portas de casa e da geladeira aos agentes fiscalizadores será qualificado como suspeito, estando sujeito a penalidades que incluem detenção provisória.

Embora ainda em estágio embrionário, a Operação já vem apresentando resultados animadores. Doraneide Marina da Costa, auxiliar de pedicure, recebeu a visita de fiscais devido à presença, em sua geladeira, de pelo menos quinze quilos de caviar Beluga Petrossian. Além do caviar, considerado um dos melhores e dos mais caros do mundo, foi encontrado um saco plástico de supermercado envolvendo um outro pacote com três outros sacos do mesmo supermercado. Dentro dele, 30.000 dólares em numeração não-sequencial, notas de 100 e 50. Dinheiro literalmente frio, sobre o qual a proprietária da geladeira terá de dar explicações.


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sábado, 4 de agosto de 2018

SEM BACKUP




I



É consenso no mundo da segurança da informação o fato de que as empresas produtoras de antivírus contratam hackers para criar vírus e posteriormente suas vacinas, perpetuando o ciclo de ameaça e proteção. 

O vírus é criado, espalhado, a imprensa se encarrega de fazer o alarde mundial e, enquanto isso, a vacina já está pronta para integrar o pacote da versão 22.4 do mega-ultra-master-magic-killer-fast-ultimate-power-virus-exterminator. O mais seguro de todos os tempos, até que chegue a hora de se criar um outro vírus ainda mais detonador e em seguida seu antídoto invencível, num ciclo criminoso que torna refém toda a humanidade. 

Mas, dessa vez, a coisa não aconteceu como deveria.






II



- Pois é, o que a gente mais temia se confirmou. Óbito, há 20 minutos. 
- Parece humor negro ou ironia do destino, mas ele contraiu um vírus raro. Ainda teve a sorte de durar três meses, o médico garantia que não passava de dois. Doença degenerativa fulminante, sem remédio nem vacina. 
- É, letalidade máxima. Acabou com ele e com uma multinacional de 50 bilhões de dólares numa tacada só! É o que se pode chamar de alto poder de destruição.
- Mas não é possível que não tenha deixado nada escrito na mesa dele. Alguma anotação em algum canto, escondida na gaveta, quem sabe salva em algum insuspeito arquivinho de wordpad?
- Nada aparente, já vasculhamos.
- Sei lá, qualquer coisa que seja uma pista de como ele estava concebendo esse antivírus. Virem tudo de cabeça pra baixo, quebrem todas as senhas do computador que ele usava, usem descriptografia, tragam hackers de fora do país se for o caso... ele não comentou nada com vocês? Nadinha?
- Caladão do jeito que era? Pois sim... Uma vez ele me disse que guardava tudo na cachola, por medida de segurança. O cara tinha um HD de 10 terabytes na cabeça.
- Amiguinhos, eu não quero saber o que fazer e de que jeito precisa ser feito, só quero que mergulhem nessa caixa de gordura e resolvam a encrenca. Dinheiro não vai ser problema! O vírus que esse rapaz criou está derrubando sistema atrás de sistema, o nível de infecção é de quarenta a cinquenta novas corporações por minuto. Se não disponibilizarmos a vacina nos dois ou três próximos dias, estaremos completamente desmoralizados. 
- Tá, e a gente vai fazer o quê? Chamar o cara à força numa sessão espírita? A porcaria do vírus é criação dele, a chance de descobrirmos algo de prático em tempo hábil é zero. Mesmo se a gente conseguisse juntar todos os hackers do mundo, ainda assim a velocidade de infecção vai travar o planeta antes que se chegue a qualquer resultado concreto.
- Então, eu sei que não é o momento apropriado pra ficar falando isso, mas... caramba, quantas vezes eu já disse nas reuniões de Conselho - essses malucos precisam trabalhar em dupla, um fica sendo o backup do outro. Se dá uma caca, tem como recuperar pois há dois profissionais envolvidos no programa.   
- Índice Nasdaq de hoje. Querem ouvir?
- Diga de uma vez, quanto perdemos?
- Até agora, 16h30, -7,2%. Debandada geral de investidores mundo afora. Viramos mico da noite para o dia.
- E o técnico canadense que chegou ontem?
- Ia falar dele agora. Desinfetamos tudo antes que ele começasse a trabalhar, mas a lei de Murphy funcionou de novo... se infectou com o vírus biológico.
- Sei, mas como ele está agora?
- Quadro de febre, vômito e confusão mental. A coisa começou assim com o nosso finado colega. É o início do fim, daqui em diante só vai definhar. 
- Tentou chamar um médico?
- Todos os hospitais estão com sistemas viralizados, pane generalizada até nos serviços de emergência. Mesmo as conexões analógicas de telefonia parecem estar comprometidas.
- Bem-vindos ao apocalipse, meninos. Orem com fervor. Agora, só confiando na volta de Jesus. 




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domingo, 29 de julho de 2018

MIQUE JEGUE E FREDE MÉRCO: Ô DESAVENÇA SEM FIM!




FREDE MÉRCO DISSE ASSIM:


Escuta aqui, Mique Jegue
Teu pé gelado eu dispenso
Toma rumo e vade retro
Pro diabo que o carregue


Até porque o diabo
Caiu na tua simpatia
Tua mãe, teu pai, tua tia
Têm parte com o cão danado


Tu e a turmina do Róliston
É tudo uns véio safado
Querem que a gente acredite
Que ocêis não são safenado


Deixa de ser marcriado
com essa língua de fora
Toma tento, retardado
Porque senão vou-me embora


Teu sucesso “Satisfétio”
Carece de inspiração
Quando saiu, não entrou não
Nas parada do Zé Bétio







E RESPONDEU MIQUE JEGUE:


O teu conjunto, o Cuim
Desafinado e chinfrim
Não levanta multidão
Nem em festa de peão


Meu parceiro, o Queiterrixa
Cheira, bebe, fuma e mama
Mas pelo menos não leva
Cinquenta hómi pra cama


Frede Mérco, sua anta
Faz que nem o Pomacarte
Que mesmo aos setenta e seis
Compõe, grava, viaja e canta


Os Bito são meus “rival”
Não nego que dão trabalho
Mas de ocê não tenho medo
É carta fora do baralho


Mandou espalhar que morreu 
Tomou Doril e sumiu
Mas essa morte, agaranto
Não passa de feiquenil





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IMAGEM: REPRODUÇÃO/JOSÉ SOARES DA SILVA (MESTRE DILA)

sábado, 21 de julho de 2018

NEYMAR, O HERÓI DAS CAVERNAS



Antes que a Seleção Brasileira chegasse às quartas de final, Neymar fugiu da concentração e partiu para a Tailândia em seu jato particular, com o firme propósito de salvar os meninos presos. Antes, porém, na boca da caverna, convocou uma coletiva de imprensa.

NEYMAR, O QUE FEZ VOCÊ ABANDONAR AS MORDOMIAS DE ÍDOLO MUNDIAL E VIR ARRISCAR A VIDA EM UMA MANOBRA TÃO ARRISCADA?

Acredito ser um chamado de Jesus. A Bruna também teve um sonho e veio chorando falar comigo, dizendo que me viu driblar todos os obstáculos rochosos e aquáticos, trazendo num instantinho o time inteiro são e salvo!

CONHECENDO A SUA FRAGILIDADE EM CAMPO, UM ESBARRÃOZINHO EM UMA ESTALACTITE PODE FAZER VOCÊ ROLAR E GEMER TRÊS DIAS SEGUIDOS...

- Cuidado com o que diz, cara. Estalactite me lembra Tite, e não estou de acordo com o esquema tático proposto por ele. Mas vou passar por cima dessa dificuldade, com a ajuda de Deus já encarei e venci muitas provas, e não será isso o que irá derrubar minha vontade de salvar os garotos. Porém confesso que, se a FIFA, a CBF ou meus assessores mais diretos puderem remover as estalactites do caminho antes que eu entre na caverna, o processo de salvamento pode ser menos doloroso para mim. Psicologicamente, eu digo.

O FATO DE VOCÊ CONVOCAR ESSA COLETIVA AQUI NÃO SERIA UM DESPERDÍCIO DE TEMPO, TÃO PRECIOSO NA TENTATIVA DE RESGATE DOS GAROTOS?

- É que eu não estou autorizado a entrar na caverna enquanto não receber a sunga, os pés-de-pato e o cilindro de oxigênio com a marca da Nike. Vocês da imprensa irão gravar tudo, e por contrato eu não posso me expor publicamente sem as marcas dos patrocinadores. 

MAS NEYMAR, UMA CAVERNA ESCURA COM QUATRO QUILÔMETROS DE COMPRIMENTO NÃO É EXATAMENTE UM LUGAR PÚBLICO...

- Olha, por mim eu entrava lá de roupa e tudo, trazendo uns três ou quatro nas costas em cada viagem. Na verdade, o logo da Nike para adesivar no cilindro de oxigênio chegou ontem, mas meus empresários disseram que não era fosforescente. É preciso que seja, para brilhar no escuro. Eu não tenho culpa, são cláusulas contratuais.

VOCÊ ACREDITA MESMO QUE PODE TRAZER OS GAROTOS COM VIDA?

- É como diz o "Tudo passa", tatuado no meu pescoço. E passa, pode acreditar. Mesmo numa caverna estreita e cheia de perigos, o Senhor vai abrir uma passagem, do mesmo jeito que abriu o Mar Vermelho, para os meninos e para o técnico dos "Javalis Selvagens". 

BOM, ENTÃO VAI, NEYMAR! ANDA LOGO...

Olha, eu não vou nem responder a essa provocação. Esse tipo de cobrança não é nada produtiva, não é isso que vai trazer um resultado positivo em termos de conjunto, de entrosamento da equipe. E isso que eu estou dizendo não vale só pra Seleção. No caso, me refiro ao staff de mergulhadores que vai me acompanhar na tarefa.

NEYMAR, AMANHÃ TEM JOGO DECISIVO PARA A SELEÇÃO. A TORCIDA BRASILEIRA ESTÁ AFLITA, POIS O ESFORÇO TODO QUE VOCÊ VAI FAZER HOJE PODE DEIXÁ-LO LESIONADO PARA A PRÓXIMA PARTIDA.

Não vejo motivo para preocupação. O único risco é o equipamento de mergulho não chegar até amanhã. Aí, não vai ter jeito: não poderei salvar o time dos "Javalis" e nem voltarei para a Rússia a tempo de disputar o próximo jogo... mas não quero nem pensar nessa possibilidade. Deus está comigo sempre, e terei humildade para acatar o que Ele decidir.



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sábado, 7 de julho de 2018

VOLTEM O LANCE




Policlínica Hermantino Lago, oitavo andar, sala 83, Doutora Giulia Laurentino da Fonseca - Memorialogista. Pós-Doutorado pela Universidade de Sorbonne. Atendimento a convênios. Recuperação de lembranças perdidas. Pacote "porteira fechada", com resgate de todo o conjunto de vivências, ou "módulo seletivo", trazendo paulatinamente à tona apenas o que foi bom – de acordo com critérios previamente definidos em consulta. Compilação neural em conjunto com paciente a partir de miniaturas  de fotos ou traillers de 1 minuto e meio. Possibilidade de escolha de períodos específicos.

Equalização de sons já esmaecidos em bruma auditiva, como vozes de entes queridos, sinos de recreios escolares e declarações de amor ao pé do ouvido. Restauro de cores apagadas, desde recordações estáticas até loopings em montanhas russas, em ambos os hemisférios ou áreas de difícil acesso no lobo frontal. Reabilitação de sensações gustativas retroativas à época da amamentação do paciente.

Possibilidade de apagamento de fato ocorrido ontem, 06-07-2018. Não porque tenha sido especialmente traumático, mas por não valer a pena armazenar dados esquecíveis na memória.

Punção de massa cinzenta danificada para análise. Dúvidas diagnósticas dirimidas com resultados entregues em 24 horas. Em casos de lances duvidosos, acionamento de VAR - Árbitro de Vídeo, e suas múltiplas telas em 4K.


Imagem: https://www.reddit.com/r/MemeTemplatesOfficial/comments/8tlfok/blank_fifa_var_room_template
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sábado, 30 de junho de 2018

JOÃO DÁ BOBEIRA




- Tá gravando?

- Sim, podemos começar.

- Amigo ouvinte, estamos aqui com o empresário Diógenes Skrauts, dono da maior indústria de infláveis do país, que responde por mais de 80% da produção de joões-bobos brasileiros. Tudo certo com o senhor?

- Tudo bem. Satisfação enorme em participar do seu programa.

- Bom, minha primeira pergunta é sobre o carro-chefe da empresa. Sabemos que o boneco produzido por vocês é um clássico, porém levando em conta o perfil da crianças de hoje, é preciso admitir um certo envelhecimento do produto... A impressão que dá é foi-se o tempo.

- Correto. Tanto que a versão clássica nem existe mais. A crise e as mudanças nos hábitos de consumo nos levaram a novos públicos e nichos de mercado. Joões-bobos caracterizados de políticos, de Presidente da República, de Judas (vendas sazonais para sábados de aleluia), de jogadores de futebol decadentes, enfim... Produzíamos também um modelo em que você tinha a opção de colocar rostos de desafetos, para socar à vontade.

- E aí?

- E aí que foi um furo n'água. Ou melhor, no joão. Mas não nos demos por vencidos. Naquele mesmo ano de 2005, nosso Departamento de Marketing sugeriu o lançamento do Seguro joão-bobo, que garantia a manutenção e o conserto dos bonecos em caso de furos e cortes, pelo período de 48 meses. E sem taxa adicional. Era um plus, compreende? 

- Bom, imagino que isso tenha livrado vocês da bancarrota.

- Que nada, meu caro. Quanto mais usos alternativos nós concebíamos e implementávamos, maior o tombo mercadológico.

- A recessão parece ter nocauteado em cheio os bonecos... E depois dessa série de infortúnios, apareceu alguma ideia redentora que conseguisse reerguer a empresa?

- Pois é, foi quando nos ocorreu um caminho diferente, atrelando o joão-bobo ao processo educativo - mais especificamente às conjugações verbais, que é um verdadeiro "calcanhar de aquiles" pedagógico. Na embalagem de cada joão-bobo, a criança encontrava um livrinho de bolso com todas as conjugações dos principais verbos, para auxiliá-la na escola.

- Não sei, isso também me parece pouco atraente.

- É, tínhamos esse risco em mente. Afinal, uma criança recorre ao joão-bobo para se divertir, não para lembrar da escola... Mas decidimos arriscar, lançando o joão-sabichão. Óculos de fundo de garrafa, semblante inteligente, jeitão de CDF. Estampado nele, a conjugação de "joão-bobar" no presente do indicativo: Eu joão-bobo, tu joão-bobas, ele joão-boba, nós joão-bobamos, vós joão-bobais, eles joão-bobam.

- E deu certo a empreitada?

- Creia-me: foi um tempo de vacas gordas. Bem gordinhas. Na verdade, a venda para a criança, pessoinha física, não deslanchou. Porém, elaboramos um sofisticado sistema de proprinas com alguns colégios das redes pública e particular no Rio Grande do Norte, inserindo o joão-sabichão como recurso didático em sala de aula. Entretando, após um bom período de curva ascendente, as vendas foram minguando, a coisa deixou de ser novidade. Nossa mais recente investida foi lançar o joão-bobo à base de troca e o ecologiamente correto. 

- Fale mais sobre isso...

- No caso do joão à base de troca, o consumidor traz o seu joão estragadinho à loja e ganha um superdesconto na compra de um novo. Já o ecologicamente correto é produzido com material biodegradável, não agredindo o meio ambiente no hora do descarte. A ideia é introduzir nas lojas um joão de personalidade esperta, antenado nas novidades e na preservação dos recursos naturais... isso está na ordem do dia!

- Aí sim, heim...

- O slogan é "De bobo, esse joão não tem nada". Semana que vem, estaremos analisando os primeiros relatórios de vendas. Dependendo do desempenho, criaremos novos modelos ou encerraremos de vez a produção. 

- Boa sorte, e obrigado pela entrevista!

- Eu é que agradeço.




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sábado, 23 de junho de 2018

ALERTA: RICARDÃO À FRENTE





Pois então, veja como são as coisas. Eu era um daqueles sujeitos com colete refletivo e bandeira de advertência em mãos, à beira da rodovia, sinalizando desvio, obra ou acidente à frente.

Para quem gosta de trabalho metódico e 100% previsível, ganhar a vida fazendo o que eu fazia era estar no paraíso. Ou, pelo menos, na estrada que leva a ele. 

Mas nem tudo é perfeito. O movimento ininterrupto do braço direito chacoalhando a bandeirinha para cima e para baixo me presenteou com uma LER, depois de um ano e meio de serviço. Foram quatro meses de licença médica, e voltei à labuta com a recomendação do fisioterapeuta de não movimentar o braço, apenas deixá-lo esticado, pois o vento batendo na bandeirinha já bastava para a sinalização.

Um dia tentei variar o braço, empunhando a bandeira com o esquerdo. Mas aí me dei conta de que ficava de costas para os motoristas, o que me valeu uma senhora raspança do meu supervisor imediato. Disse na ocasião que a minha falta era dupla - de educação, por não ficar de frente para o usuário, e de amor à vida, já que não poderia enxergar e desviar a tempo de um carro que viesse em minha direção. 

Quinze dias depois, descobri o quanto aquela minha iniciativa de revezamento braçal tinha sido desastrosa. Era uma sexta à tarde, quando fui chamado ao RH.

Engrossando as estatísticas de 14 milhões de desempregados, me vi sem eira nem beira e muito menos acostamento. Desorientado, batendo perna a esmo atrás de colocação ou trabalho temporário, dei com uma placa de "Contratamos" na fachada de um velho galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de espoletas.

Ironia do destino: o barracão tinha virado uma indústria de "ricardões", aqueles bonecos que substituem os sujeitos que fazem o que eu fazia. Alguns empunhando binóculos, outros com bloquinhos de multa e boa parte deles com a maldita bandeirinha cor de abóbora, que ao ser despedido jurei nunca mais querer ver na frente. 

Não sei dizer se minha experiência anterior à beira da estrada colaborou para que conseguisse a vaga, mas o fato é que no dia seguinte estava a postos na linha de montagem de ricardões rodoviários, réplicas mal-acabadas de mim mesmo.

Até que ontem me apareceu para produzir um ricardão-supervisor, com roupa idêntica e fisionomia parecida com o carrasco que me colocou na rua. 

Não pude disfarçar um esgarzinho de satisfação no canto da boca. Tentei despedi-lo da minha cara, mas ele se recusa a ir embora.


Imagem: http://reflectivevestsindia.blogspot.com
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