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domingo, 15 de setembro de 2019

PORÃO AO MOLHO MOFADO




Naquela quarta, se bem me lembro, desci os degraus de quatro em quatro e me enovelei ao porão mofado. 

Ursos sem as tripas, de olhos de vidro e pelúcias puídas, me olhavam medrosos em sua ciranda, palitando os dentes com agulhas de vitrola. 

O tufão das sombras velhas abria as tampas dos baús, violentando o sono eterno das ausências. E todo o tempo sem volta bailava ali sua valsa e me tirava pra dançar, reduzindo a obra de Deus a três compassos de Tchaikovsky.

Boiando para adiar a morte, via a ponta do meu nariz quase encostando no que ao mesmo tempo era o teto daquele antro de cupins e o assoalho da casa. 

Era questão de tempo. Eu viraria o porão de mim. 



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domingo, 1 de setembro de 2019

TRATAR COM O PROPRIETÁRIO




O encrenqueiro mora de graça, em uma das doze kitnets. Por contrato firmado com o proprietário, tem a obrigação de renovar o plantel de moradores trouxas no máximo a cada dois meses. 
Armas e estratagemas não faltam.
. Som alto 24h, com o devido cuidado na escolha "a dedo" de finíssimo repertório.
. Despejo "involuntário" de detritos de lixo nas áreas comuns, entornados no trajeto do apartamento do encrenqueiro até a lixeira coletiva.
. Gatos e cachorros soltos, distribuindo poças e montes de número 1 e número 2 nas portas de todas as unidades, indistintamente. 
. Nuvens de maconha.
. Simulação de ato sexual ao longo das madrugadas.
. Com tantos e tão insuportáveis incômodos, em questão de dias a situação não se sustenta mais. O contrato de locação, no entanto, é bem claro: seu rompimento resulta em multa no valor de 4 aluguéis, a ser paga pela parte infratora. Como existe certa "gordura" para negociação, o proprietário reduz a multa a dois aluguéis e meio, depois de muito rogo do locatário. O valor pode ainda cair para apenas dois aluguéis, caso o inquilino desocupe o imóvel mas já deixe a indicação de outro ocupante. Para conseguir um incauto que o substitua, o morador terá que apregoar o conjunto de apartamentos como o melhor lugar do mundo. Ou seja, a vítima da vez acaba por fazer a prospecção da vítima futura. 
. Contas de água e luz de todos os apartamentos estarão sempre em dia, já que é obrigação contratual do inquilino transferir a titularidade das contas para o seu nome. O proprietário mantém sua indústria de brigas sem a mínima despesa. E com os apartamentos invariavelmente em ordem, pois cada desocupação implica em nova pintura.
. Como o trabalho do encrenqueiro resume-se a tramar novos e sucessivos atritos entre moradores, ele se aproveita do horário comercial, em que todos habitualmente estão fora de suas casas, para espalhar discórdia. Um dos golpes, que costuma resultar em BO, tem o seguinte modus operandi:
1) Remoção do miolo da fechadura de um dos apartamentos. O miolo irá voltar para a fechadura supostamente arrombada, pois o inquilino golpista possui chave de todas as portas de entrada. A ideia é apenas simular uma violação.
2) Foto da porta semiaberta.
3) Roubo pelo golpista de eletrônicos ou outros bens de valor.
4) Ao chegar do trabalho, a vítima do apartamento 3 é comunicada pelo encrenqueiro que o morador do 5 invadiu seus domínios, fugiu carregando coisas mas não foi fotografado pois escapuliu enquanto o encrenqueiro buscava seu celular. Assim, só a porta aberta foi fotografada.
5) O grande diferencial deste estratagema é garantir duas mudanças de uma só vez, duas quebras de contrato e duas multas a serem cobradas.
6) Para facilitar as coisas, encrenqueiro e proprietário se unem para a segunda parte da mutreta: a indicação de um sujeito que trabalha com carreto, e que cobra a metade do preço de mercado para fazer a mudança.
7) No "trajeto", o caminhão é "assaltado". É claro que os móveis do inquilino são solidariamente repartidos entre os autores da trama. Lembrando que são dois carretos, que significam dois roubos.
8) Na prática, cada kitnet do conjunto é alugado em média por 2 mil reais/mês, se computados multa e venda dos móveis quando do "roubo" da mudança. 
Tudo muito simples, rápido e rentável. 



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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

VOVÔ E VOVÓ... EU NÃO POSSO ACREDITAR!





50 anos depois, casal da foto de Woodstock está junto até hoje.


Bob, o neto mais velho:
- Não tinha lavanderia nesse lugar, não? Olha a sujeira do edredon, vó. Você fica falando para não sujar as coisas, sujou tem que limpar, toda hora está mandando a gente desintefar as mãos com álcool gel e olha vocês dois... que porquice. Mais parecem dois pedintes. E sabe-se lá se a coisa rolou só entre vocês, se não tinha um terceiro ou quem sabe um quarto!

Wendy, neta com 14 recém-completos:
- Faça o que eu digo mas não faça o que eu fiz, né vô? E vocês levando a gente para a escola dominical, convidando o pastor para o peru de Ação de Graças, agradecendo ao Senhor antes de atacar a comida e ensinando que o certo é fazer sexo só depois do casamento. Para fins de procriação e de luz apagada. Sei...

Mark, 16:
- Bom, o que eu ia falar o Bob e a Wendy já disseram. Nosso mundo caiu junto com a hipocrisia moral de vocês. À parte todas as evidências, já estou até adivinhando: vocês vão dizer que foram abduzidos por um OVNI e forçados a desembarcar no paraíso das drogas, do sexo e do rock and roll. 

Kethleen, neta de 21:
- Pra que esconder até hoje esse passado comprometedor? Adiantou alguma coisa, por acaso? Agora tá aí a foto correndo mundo, em comemoração aos 50 anos daquela pouca-vergonha. E a humanidade inteira sabendo que são vocês o casal símbolo daquela libertinagem hippie. O que é que nós vamos falar lá no Clube de Escoteiros?



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domingo, 18 de agosto de 2019

ENGENHO DA MARVADA




A família Cabrália. Desafio aparecer alguém que nunca tenha, pelo menos, ouvido falar. Donos de terras de onde você está até perder de vista, não importa em que lugar você esteja. Era um infinito de terra roxa da melhor qualidade, a ponto do  caminhante  morrer antes de acabar de percorrer o fazendão.

Os Cabrália passavam a vida à espera de heranças, e este esperar era o único afazer de todos na casa grande. Largavam-se às redes na varanda, aos banhos de cachoeira, às sem-vergonhices com a criadagem e a um fazer-coisa-nenhuma sem fim, embalados a doses cavalares de cachaça. Mulheres e homens, sem distinção. Dos pré-adolescentes aos patriarcas e matriarcas beirando os cem, todos bebiam dia e noite e esbarravam-se pelos corredores, trançando as pernas e falando mole.

As doses cavalares tornavam-se industriais. Até que o mais (ou o menos) sóbrio entre eles viesse com a ideia da instalação de um destilador próprio da "marvada" - que abastecesse a família e cujo excedente fosse despejado no mercado, em forma de caninha com rótulo, registro e - se Deus ajudasse - consumidores fiéis. 

Se no grande solar da fazenda a caninha foi um sucesso, no mercado foi um fracasso. Para esquecê-lo, bebiam ainda mais. Faziam da aguardente um escudo contra o tédio, os medos, os aborrecimentos e até contra moléstias que os viessem ameaçar. E nas novenas, em hora da Ave Maria, pediam proteção divina às doenças terrenas e rogavam, ainda que não explicitamente, para que a morte da parentalha viesse antes da própria. Assim herdariam mais uma parte das terras, que bem ou mal garantiria um tempo a mais de vagabundagem e de entrega ao álcool.

E o que um dia foi um imenso latifúndio de produção de açúcar para exportação se transformou em agricultura de subsistência. Nos primeiros anos, o percentual reservado a consumo próprio era de 10%, depois passou a 20%, em seguida a 50% e daí foi um pulo para que todo o canavial fosse destinado ao engenho de pinga. Ou melhor, ao vício familiar a que todos se entregavam descontroladamente – até que morressem, fossem sepultados e seus corpos conservados ad infinitum pela quantidade absurda de álcool nos organismos. 

O problema é que, desse estágio em diante, a família mesmo tinha que plantar, cultivar e colher a cana. Isto porque, não havendo renda gerada com a comercialização da lavoura, ninguém se arriscava a trabalhar de boia-fria pela possibilidade de não receber. E lá iam eles, antigos fidalgos, encarar a lida para estancar a sede de álcool. Riquíssimos vestidos da mais pura seda, vindos de ateliers da Europa, viravam ataduras para estancar os cortes da ceifa de cana, embornais de marmita, fraldas de rebentos que iam nascendo de mães bêbadas. A céu aberto e sem assepsia, a terra roxa de misturando ao sangue do parto. 

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Imagem: http://www.lugaresesquecidos.com.br/2013/02/ruinas-da-fazenda-zumbi-safari-igarassu.html

domingo, 28 de julho de 2019

PREVIDÊNCIA MESSIÂNICA




Messias, o bam-bam-bam do Brazil, dá tratos à bola para que nossos idosos encontrem travas cada vez maiores para passarem da categoria de filiados à de beneficiários da Previdência. "Tem que dar um jeito de acabar com  metade disso daí, tá ok? Como a gente diz no Exército e no Tiro de Guerra, é excesso de contingente. É muito velho coçando e enchendo a paciência dentro de casa. Por outro lado, tem pouco moleque pegando no cabo da enxada e contribuindo com o sistema. O pulo do gato, no tocante a isso daí, é triturar a velharada na máquina de moer carne, trabalhando até os 90, pra bater a caçuleta com 91, no máximo. Sem dó. Aí sim. Custo-benefício otimizado. Ou missão cumprida, como se fala na caserna. Foi o que eu disse ainda ontem pro Gueldes. Olha, Gueldes, tem que dar um jeito nesse negócio aí, no tocante a essa problemática aí a gente precisa tomar uma providência. Ou uma previdência, positivo?".

Comenta-se que algumas alternativas estão em discussão junto ao pessoal mais chegado a Messias. A ideia é promover uma espécie de “senilicídio” em várias frentes, que incluiria crueldades como a distribuição de lotes com validade vencida de vacina para gripe, bengalas e muletas com defeito de fabricação, cursos de rapel para a terceira idade e excursões para a Faixa de Gaza.

Aos brados, Messias prossegue: “O Gueldes, como os senhores bem sabem, é Pactual e fez um pacto comigo: "Tamo junto, Bolso!". Eu respondi: É Jesuis na goiabeira, Paulão! Damires forever, né não? O povo parece que não entende, ou se faz de desentendido. Quer que eu desenhe ou fale em libras? Vamos celebrar com orgulho verde-amarelo, com a mão no peito e o hino na ponta da língua, a nova previdência aprovadinha pelo Congresso na Semana da Pátria. Ou não me chamo Messias. Ou o meu menino do meio, o Dudu hamburgueiro, não será meu homem de confiança nos Estados Unidos do Donald.

Quanto ao espantoso aumento dos críticos e dos desencantados em relação à administração messiânica, ele rebate: “Bom, devo dizer que, primeiramente, sou o Messias e não o Bessias - aquele que levou papelzinho a mando da Dilma pra livrar a pele do Nove Dedos. E Messias, segundo a bancada da Bíblia, significa ungido, predestinado, o redentor prometido. Olha a moral e a responsa, meu amigo! É por isso que, no meu governo, a prioridade ficará sempre no tocante às coisas prioritárias, como a não obrigatoriedade das cadeirinhas de criança nos carros, o fim do horário de verão e das tomadas de 3 pinos, o aumento de pontos pra cassação da CNH, a abertura do mercado argentino para o abacate brasileiro, os quinhentão do FGTS e mais uma heroica tropa de medidas, que estão aqui pipocando na minha cachola e que irei desovando aos poucos nos próximos quatro anos”. 



Esta é uma obra de ficção.
Imagem: americanas.com

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segunda-feira, 22 de julho de 2019

ACONTECEU EM ALDERSHOT



Em 9 de dezembro de 1961 – ainda desconhecidos e com Pete Best na bateria – os Beatles animaram um baile para apenas 18 pessoas no Balroom Palais, em Aldershot, Condado de Hampshire. Os poucos gatos pingados nem olhavam para o palco.


1.
– Conjuntinho fuleiro, heim? Pelo amor de Deus… Poxa, seria mais bonito assumir que a grana tá curta e adiar o baile.
– De acordo. Quinta categoria mesmo. Se não tem dinheiro, coloca aí uma vitrola e umas caixinhas de som que dava mais certo.
– Opa, olha essa mão boba, Jonathan!…
– Sorry.
– Deixa a pista encher mais, agora tem pouca gente dançando.
– Então quando encher o salão você deixa? Promete?
– Vou pensar, não fica me pressionando. Nem me apertando, please.


2.
Toca Little Richard, toca Little Richard, toca Little Richard!!!
– Nossa, mais um pouco e acho que vão linchar os caras.
– Olha, jogaram um copo no palco! Agora vai acabar o baile de uma vez.
– De onde são esses quatro?
– Parece que de Liverpool, mas não tenho certeza. Vi no cartaz, o nome é alguma coisa parecida com “besouro”. “Beettles”, se não me engano.
– É aquele negócio… hoje em dia qualquer um que arrume uma bateria de bumbo furado, um baixo de três cordas e uma guitarrinha de segunda mão monta uma banda. E dá nisso aí que a gente tá vendo.
– Caramba, quer parar com essa mão, fazendo o favor???
– Com a gente são… um, dois, três, quatro, cinco… dezoito! Você prometeu que liberava quando tivesse mais gente dançando.
– Tá. E dezoito pessoas pra você é salão cheio, né? Sobe essa mão que eu não quero ficar falada.
– É, hoje não é mesmo o meu dia. Uma merda de conjunto, baile vazio e você regulando uma passadinha de mão. O que mais falta dar errado?
– Não é sua noite e eu estou naqueles dias…
– Menstruada?
– Não. De TPM.

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domingo, 14 de julho de 2019

COMUNICADO DE RECALL - PENICOS JATO CERTO




A JatoPlast do Brasil, consciente de sua responsabilidade pela satisfação, pela integridade física de seus consumidores e zelosa pelo bom nome de sua marca no mercado nacional, vem a público solicitar o comparecimento às lojas de utilidades domésticas em geral dos proprietários de urinóis (penicos) produzidos pela empresa entre os meses de abril e agosto de 2018.

Testes recentemente realizados nos laboratórios de controle de qualidade em nossa unidade de Barra do Piraí detectaram que os lotes de número 9478AJL984-90, 3920BTM275-02 e 6781CPA440-35 dos modelos Jato Certo Confort Extra Plus, quando submetidos a condições extremas nos testes de resistência, apresentaram em 0,87% dos casos as seguintes anomalias:

- Deformidade discreta da alça por ocasião do transporte do quarto ao vaso sanitário, sempre que a quantidade de urina contida no produto ultrapassava a marca de 820ml.

- Descoloração precoce do plástico nos modelos de cor rosa, a depender da acidez da urina do usuário. Demais modelos da linha, nas cores verde, azul e terracota, não apresentaram alterações relacionadas a desbotamento, nos testes realizados consoantes às normas da ABNT.

- Jatos de urina com inclinação superior a 45 graus em relação à base do penico provocaram a dispersão de gotículas que podem, em casos extremos, levar ao alagamento das superfícies circundantes e até mesmo ao respingamento de urina diretamente sobre os pés, tornozelos, calcanhares e joelhos do consumidor. 

Para mais informações e agendamento da troca dos produtos, solicitamos aos nossos clientes o contato com nossa Central de Atendimento 24 horas.


Imagem: shoptime.com.br
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