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sábado, 14 de abril de 2018

A FAMÍLIA REUNIDA




Uma retrospectiva da obra de Klausten Van Herbert, no MoMa, reacende o debate em torno de um dos mais célebres quadros da história da arte: "A Família Reunida".

Foco de discussão há anos entre críticos de arte, leiloeiros, marchands e estudiosos, o sorriso enigmático – especificamente do pai – parece mais intrigante com o passar do tempo e com a sucessão de teses acadêmicas das quais é objeto. 

No âmbito estilístico, a influência de Miró é predominante e incontestável, bem como da arte naif. Mas engana-se quem se deixa levar por essa definição reducionista.

A aparente singeleza e a suposta simplicidade da obra são ardilosamente manejadas pelo artista para ludibriar o desavisado observador. É como se o autor tivesse a intenção de provocar discórdia, agindo premeditadamente para polemizar.

No primeiro boneco, em vermelho, percebemos a ausência de olhos como uma velada porém não imperceptível crítica à manipulação da realidade pelos meios de comunicação, que têm na alienação do ser humano e na subserviência das massas ao status quo o seu maquiavélico objetivo.

Teóricos parecem concordar com a interpretação de que a figura materna é muito possivelmente representada pelo serzinho em azul. A ausência dos pés retrataria a forçada imobilidade feminina na dinâmica socioeconômica. É a chamada "arte denúncia", que nas democracias mais evoluídas vem encontrando estímulo cada vez maior, tanto no que se refere ao fomento governamental e aos patrocínios da iniciativa privada quanto aos espaços de exposição, modernos e bem estruturados. 

Evidente que, em obra tão permeada por signos subjacentes - e não raramente despercebidos ao olhar desatento da fruição meramente estética - seria de se esperar a presença de símbolos concernentes às sociedades secretas, como a Maçonaria, a Ordem dos Templários, os illuminati, a Opus Dei e os Rosacruzes. E tais referências saltam aos olhos: mesmo aos não iniciados, revela-se óbvio esse intento, materializado em um sem número de elementos representativos dessas organizações.

Já a ausência de uma figura em amarelo vem sendo erroneamente interpretada como segregação à cultura oriental. Em recente coletiva de imprensa, o consagrado pintor esclareceu que os tons amarelados, embora não presentes nas pessoas do quadro, consta do arco-íris ao fundo. No entendimento do autor, isso colocaria o amarelo e todas as suas conotações étnicas e filosóficas como parte da natureza e da vida. 

Por último, parece nítido o propósito de Klausten Van Herbert em atribuir o conceito de ascendência ou elevação às figuras retratadas. Basta que o espectador repare no aclive da perspectiva dos pés em relação à base do quadro. Observa-se um ângulo a elevar-se da esquerda para a direita, o que pode ser entendido também como uma simbologia das convicções políticas do artista, que como todos sabem migrou da militância ativa no Partido Comunista para uma posição ideológica bem mais conservadora.  


Foto: http://www.allfun.md/article/32103

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domingo, 8 de abril de 2018

MATERIAL DE DEMOLIÇÃO




MATERIAL
O oratório e o missal de madrepérola, tacos pequenos soltando em efeito dominó, um vidro começado de xarope São João, esfregão sem cabo servindo de peso de porta, cantoneiras de retrato em práticas embalagens de 200 unidades, velas votivas Belém 100% parafina, o Opus Dei precisa da sua colaboração: preencha aqui o valor de sua contribuição mensal, disco é cultura, com sua Lanofix você poderá fazer roupas de tricô para toda a família, Gillette Platinum Plus Registered Trade Mark, Monark Monareta 73 - toda a loucura da vida para rasgar o mundo, azedinhas sortidas Sönksen, contribua pela formação de um Brasil grande: encaminhe um analfabeto a um posto do Mobral, Loteria Esportiva Federal - teste 254, com Magnésia Bisurada você fica bom mais depressa, fogão Semer Radiante em oferta relâmpago na Eletroradiobraz, ouça em alto e bom som no seu rádio Admiral.




DEMOLIÇÃO
Hashuashuashuashua :D :D :D
Bfds, vacilei mais vou googlar, sqn véi. :(((((((
Vlw. Joseh Bonifácil? Nuntendi, eh onde fika sua ksa, miguxo? Posso te add? kbeça zuada hj, bjão, tão xau.




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sábado, 31 de março de 2018

O REMÉDIO É A PERMUTA



- Nossa rede de farmácias tem uma oferta irrecusável pelo seu terreno, Sr. Álvaro.

- Bom, não tá à venda. Mas dependendo do que você tiver aí na manga, não sou louco de não aceitar...

- O senhor sabe que está todo mundo mergulhado até o pescoço nessa crise, e a oferta de imóveis excelentes para vender é enorme. Terrenos semelhantes ao seu, nesse bairro, há pelo menos uns vinte anunciados.

- Tá, pode pular essa parte.

- Indo direto ao assunto: só fazemos negócio à base de permuta.

- Não estou entendendo. O que uma rede farmacêutica vai querer permutar em troca do meu terreno?

- Óbvio: remédios. Todos os que o senhor e sua família precisarem. 

- Oi????

- O senhor já parou para pensar o peso que tem o gasto com medicamentos no seu orçamento doméstico? Basta fazer uma conta por alto, assim de cabeça, e vai se assustar com o resultado. Fica entre 7 e 20% das despesas mensais. Um percentual que vai aumentando conforme a família envelhece.

- Maluco isso...e quem da família pode aproveitar essa permuta?

- O senhor, sua esposa, seus filhos, netos, genros, noras, sogros, cunhados e parentes até o segundo grau. Do seu ramo familiar e da sua mulher também. E é vitalício, o contrato vale até que todos morram. Mas o terreno tem que vir como doação para a Rede imediatamente, com escritura em cartório, tudo direitinho.

- Mas eu posso morrer amanhã! Aí dessa permuta eu não aproveito nada... É cada uma que me aparece!

- Veja, com tantos remédios à sua disposição, vai ser difícil o senhor morrer tão cedo. E, se morrer, vai deixar uma bela herança em saúde para a família toda. 

- Só que o meu terreno vale 2 milhões!

- E quanto vale a saúde da sua família? Seu neto, por exemplo, pode vir a precisar de um remédio caríssimo, de uso diário... Será tudo por nossa conta. A única possibilidade do senhor fazer mau negócio é se sua família inteira estiver a bordo de um avião que venha a cair e mate todo mundo. Aí não dá para fazer nada mesmo.

- Nossa, seria azar demais.

- Só que tem alguns pontos importantes, previstos em contrato, para a permuta não virar bagunça. O senhor pode ter parentes hipocondríacos, e aí vamos ter prejuízo. Outra coisa: hoje em dia farmácia vende de tudo. Tem chocolate, isotônico, recarga de celular, barrinha de cereal, bronzeador, batata frita... Então é bom que fique bem claro que a permuta é para medicamento. E tem que haver uma perícia com um farmacêutico da rede, para saber se o remédio requisitado condiz com o quadro do paciente.


- Sei. E vai ter farmacêutico de plantão na farmácia?

- Ahnnnnn.... bem... o que eu quero dizer... Olha, tem que ter a autorização de profissional habilitado. Se não tiver farmacêutico aqui na hora, o gerente liga para a central da rede e a gente envia um para fazer a perícia. Esse ponto precisa ficar bem entendido.

- Que prazo eu tenho para dar uma resposta?

- Meia hora. A máquina de terraplenagem já está vindo para cá.

- Calma aí, queridão. E se eu não quiser fechar negócio?

- Sabe aquele outro terreno, atravessando a rua? Já está vendido para nós, caso o senhor não aceite. 



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sábado, 24 de março de 2018

MANÉ, SAUDOSO MANÉ



Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.


Imagem: pexels.com
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sábado, 17 de março de 2018

RETATUANDO




A ideia é fantástica: tattoo imitando pele, para ser aplicada por cima do corpo tatuado, simulando uma derme zero quilômetro. Um processo caríssimo e muito mais demorado do que encher o corpo de dragões, flores, âncoras, crânios, frases e assemelhados. 

Há uma vasta escala de cores com todos os tons de pele possíveis e imagináveis. Encontrado o tom exato do cliente, este passará semanas aos cuidados do tatuador, tendo que suportar um total estimado de 4 trilhões de agulhadas até que a falsa nova pele fique pronta.

A nova tecnologia tem duas finalidades principais. A primeira é possibilitar a reversão do que até agora era irreversível, deixando o corpo da forma com que veio ao mundo. A segunda é como limpar um muro todo pichado e deixá-lo pronto para nova pichação. Ou seja, uma solução voltada aos amantes compulsivos dessa antiga arte - aqueles que só não carregam mais tatuagens em si por falta de espaço na carcaça. 

O primeiro público consiste, em sua maioria, de evangélicos neoconvertidos, que de uma hora para outra encasquetam que seu corpo é a morada do Senhor e, como tal, deve ser mantido do jeitinho que foi criado. E também dos desiludidos do amor, que aplicaram em si mesmos frases ou extensas declarações de paixão eterna, com o nome da cara metade, e acabaram por levar um pé na bunda. 

Já o segundo público, bem mais "outsider" que o primeiro, terá a sensação de portar sobre si um verdadeiro parque de diversões, podendo substituir desenhos e símbolos que considere ultrapassados ou dos quais já esteja farto de carregar pra baixo e pra cima. Para esses alternativos, seria como nascer de novo - abrindo seus corpos para o inenarrável prazer de entupir cada poro de tinta. 



Esta é uma obra de ficção
Imagem: absfreepic.com
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domingo, 11 de março de 2018

PLASMEM!!!*



Eis que, entre tentativas e erros, feridos e mortos, a coisa – que é aquilo que mais se aproxima do sonho humano da eterna juventude, aparece finalmente em 2018 como algo plausível. Com 100% de eficácia em ratos, e ao que tudo indica em homens também.

Trata-se da transfusão de sangue de pessoas novas para mais velhas,  algo acalentado há séculos pela ciência. 

Mesmo ainda sem o aval definitivo dos pesquisadores envolvidos nos estudos, o pretenso milagre já está à disposição de quem tem bala para pagar. Nos Estados Unidos, há filas de gente, com 35 anos ou mais, sem dó de bancar 8.000 dólares por procedimento.  

Com a falta crônica de perspectivas de trabalho para os jovens do terceiro, do segundo e até do primeiro mundo, a nova técnica e sua disseminação trará, mais do que a perspectiva de rendimento, um doce meio de vida para a rapaziada até o momento tão sem norte.

Muitos sairão do desemprego para uma vida milionária, da noite para o dia. 
Não demora e aparecerão clínicas especializadas em manter simultaneamente até 400 ou 500 jovens, em regime de alimentação ultrabalanceada, verdadeiros resorts juvenis, para que cada hóspede faça, entre um squeeze de megamass e outro, coletas seguidas de plasma rejuvenescedor. Ao preço que o mercado americano se dispõe a pagar, calcule o rendimento mensal a que cada molecote fará jus...

Só que aí começam os “poréns”. O aumento galopante da expectativa de vida, que é um problema sério a ser equacionado pelos sistemas previdenciários do mundo todo, ganhará um agravante cavalar – já que todos os bípedes falantes tornariam-se potencialmente candidatos à vida sem prazo de validade. 

Não é preciso ter bola de cristal para antever que os doadores, que tão facilmente resolveriam seus problemas financeiros, acabariam tendo nos velhos rejuvenescidos os seus rivais. Isso porque os velhos, ao se tornarem jovens outra vez, irão querer  para si a boquinha de 8000 verdinhas por transfusão. O colapso virá quando todos se tornarem jovens e não houver mais velho nenhum querendo pagar rios de dinheiro pelas transfusões. Antes da falência total do esquema, o excesso de oferta já terá feito o ouro vermelho despencar a valores aviltantes, pois a oferta será enorme. 

Enquanto isso os neo-jovens, com hormônios saindo pelo ladrão, copularão desenfreadamente, ocasionando um baby-boom sem precedentes. Até que um dos recém-rejuvenescidos, mais esperto que a maioria dos seus pares, terá a genial ideia de tentar uma transfusão sanguínea de um desses bilhões de bebês para um colega-cobaia. Esse sujeito rejuvenescerá e voltará aos seis meses de idade. O raciocínio é lógico: por que sermos jovens se podemos voltar a ser bebês???

Todos então virariam bebês e o mundo se tornaria ingovernável. Mas um esperto preferirá não fazer a transfusão e tornar-se o rei do pedaço, por ser o único adulto remanescente em meio a hordas de lactentes.

Como toda fleuma e sabedoria, deixará que a idade lhe traga naturalmente a experiência que só os mais velhos podem ter. Usufruirá dela até os seus 90, e só então partirá para os rejuvenescimentos, que o permitam continuar sendo o mais velho do planeta, sem os percalços que a velhice traz.  E será para sempre o dono do mundo, como se fosse um dono de creche. 

*Ficção inspirada em estudo científico real.



Imagem: pharmamicroresources.com
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sábado, 3 de março de 2018

MIM TARZAN, YOU TUBE






Definitivamente, Tarzan não estava em seus melhores dias. Chegou à repartição meia hora depois do cacique, derrubou pó de guaraná na camisa branca e, como se não bastasse, o programa travou no meio da planilha. O relatório precisava estar pronto dali a duas luas, no máximo.

Ficou olhando impotente para o mico computador, contando até 10 para não esmurrá-lo. Era todo de jacarandá, com uns detalhes em peroba rosa. Talvez por isso desse pau o tempo todo. Comprado de contrabando, veio escondido debaixo de um carregamento de mogno vindo do Amapá.
O gabinete de Tarzan era no décimo oitavo andar da palmeira imperial 15, Asa Sul de Bem-Te-Vi.

Lá vem ela: Jane. Aquilo não era uma mulher, era uma reserva natural paradisíaca. Assim ficava difícil se concentrar no trabalho. Funcionária nova, chegara ali transferida da Funai, depois de ter servido oito anos na Sudam. Se aproxima insinuante e pergunta qual o melhor caminho pra voltar pra casa.

Meu Santo, Daime forças pra resistir à tentação. Seria uma inesquecível transa amazônica...
Tarzan explica que o caminho mais fácil é pegar o cipó 12, passar três estações, fazer conexão com o cipó 35, saltar na Avenida Vitória Régia e dali ir de canoa até sua oca.

Com vestido de chita essa Jane fica um arraso, ele pensa. Mas, se abatesse a presa, teria que ser mais cauteloso do que com aquela gata vestida de oncinha, que levou para o meio do mato na semana passada. Por um descuido a conta do “Moita’s Hot Nightfoi parar na fatura do cartão de crédito. Pra explicar em casa não foi nada fácil, o couro de jacaré comeu solto quando chegou na cabana.

A reunião com a diretoria foi demorada. Pauta do dia: Alternativas para livrar a selva de pedra da extinção, detendo a devastação da cidade pela floresta e preservando os mananciais de CO2. "O crescimento desordenado da mata nativa vem engolindo impiedosamente as chaminés das fábricas. Se não fizermos alguma coisa agora, não vai sobrar uma fumacinha para as próximas gerações", argumentava colérico o gerente de assuntos institucionais. E aí a discussão se estendeu com todo aquele papo de sustentabilidade, de responsabilidade ambiental, que a empresa precisa se mobilizar pra calar a imprensa e aplacar os ânimos da opinião pública, etc. Ao final, tudo combinado e nada resolvido. Saiu esgotado do blá-blá-blá e parou no bar para um Gin das selvas. Duplo.

De volta à cabana, acessou amazon.com e encomendou o último lançamento do Ramos de Carvalho, que o Campos Nogueira havia recomendado para seu primo, Pinheiro da Serra. Aproveitou e comprou também um ensaio do Florestan Fernandes e um CD da Vanessa da Mata.

Já na rede, pegando no sono, o celular toca. Era o Aníbal pedindo que lhe quebrasse um galho. E toca o tonto do Tarzan a se embrenhar floresta adentro, com a moto-serra nas costas, pra resolver o problema do amigo.

Nisso já clareava o dia. Parou na banca de jornais, comprou a “A Voz Nativa” e leu a reportagem sobre um projeto voluntário de crianças que derrubavam árvores para transformar em roçados de arroz e soja. A matéria também falava de um grupo de adolescentes que drenou um rio e seus peixes para enchê-lo de asfalto. As fotos mostravam as mães dos meninos chorando de emoção, o jornal elogiava o exemplo de cidadania, um representante da ONU veio condecorar a escola e os alunos pelo feito inédito e inspirador.

Com os olhos marejados, dobrou o jornal e seguiu direto para a repartição, exausto e sem banho tomado, mas com o gratificante sentimento de que nem tudo estava perdido nesse mundo.


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