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sábado, 21 de outubro de 2017

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO




- Essa sua matemática é muito esquisita. Muito, muito estranha.
- Esquisita nada. Pensa comigo: quando começa o horário de verão, você é surrupiado em uma hora, e ela não vai voltar nunca mais.
- Mas quando o horário acaba, a hora retorna pra você, pois os relógios são atrasados em uma hora e tudo volta a ser como antes. 
- É isso o que você não está entendendo! Como é que eu vou explicar?... Quando adiantaram o relógio, no começo dessa porcaria que não economiza energia elétrica nenhuma, somos tungados em uma hora. Até aí tudo bem?
- Sim, lógico. 
- Então, e lá em fevereiro, quando essa hora é devolvida, não é que você "ganha" uma hora. As coisas simplesmente retornam aos eixos. O certo, para que houvesse justiça, seria atrasar duas horas. Uma para tudo voltar ao normal - e até aí, zero a zero - e outra pela hora que te roubaram em outubro, meu velho!!! Será que é tão difícil assim perceber a diferença? A cada ano, te subtraem uma hora de vida, que vai ficar eternamente na saudade. Simples e aritmético. Conta de mais e de menos. 
- Certo, e aonde você tá querendo chegar?
- Ao Governo Federal, com uma ação na justiça. Só minha ou coletiva, depende de quantos entenderem o raciocínio e comprarem a ideia. 
- Ah, vai ser difícil você explicar esse negócio aí...
- Olha, nem eu sei direito quantos horários de verão já foram enfiados goela abaixo da população. Vamos supor que tenham sido 20 até hoje. Então haveria um banco de horas. Para cada horário de verão que entrar em vigor, o cidadão teria direito a uma hora de crédito. Livre, sem trabalhar, pra ele usufruir como quiser. E que ele pode gozar a cada ano ou ir acumulando para tirar um monte delas de uma vez só. Compreendeu? Sempre deixando claro que essa hora adicional é além daquela oficial, que já retorna de qualquer jeito quando acaba a brincadeira.
- Espera aí, espera aí... para, para tudo, tá dando um nó na cabeça.
- Não tem nó nenhum, é simplesmente óbvio, as pessoas é que ainda não perceberam!
- Tá errado, cara. Quando começa, você fica com um dia de 23 horas. Mas quando acaba, você tem direito a um de 25. Justiça total, tudo certo.
- Ledo engano! Quando acaba, você só volta a ter um de 24, que é o que cabe a todos nós desde que o mundo é mundo. Aqueles 60 minutos que sequestraram não serão resgatados.
- Jesus amado, eu não vou ficar discutindo com você. Daqui a pouco é uma hora perdida - e, nesse caso, perdida mesmo - com uma discussão que não leva a nada. Precisa estar bem desocupado pra ficar pensando nessas coisas...
- Errou de novo, queridão. Sou ocupado até demais. Pode reparar, todo mundo reclama da falta de tempo. Aí chega um cidadão e decreta que, de outubro a fevereiro, você tem menos tempo ainda. É arbitrário e injusto.
- Então não acerta o seu relógio. Pronto, encerra o assunto. 
- Mas aí serei só eu o errado. Fico descompassado do rebanhão. Agora, se todo mundo desacatar, vamos ganhar essa parada. Podemos tomar de novo o poder do tempo! Ou, pelo menos, exigir a implantação do BHV - Banco de Horas de Verão... Se bem que, neste ano, não adianta mais. E, para entrar em vigor no ano que vem, a proposta do banco tem que ser votada até o fim de novembro.
- É, mas estamos no horário de verão. Brasília esvazia mais cedo, os deputados não são de ferro e também querem curtir sua praia e sua piscina. E olha, se for correr abaixo-assinado na rua, não esquece do protetor solar. Fator 50, no mínimo.



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sábado, 14 de outubro de 2017

CAÇAMBA!



Estou com uma caçamba de 5 metros cúbicos estacionada na frente da minha casa. Coisa mais linda, um verdadeiro mimo, com entulho até a boca. 

Resolvi derrubar uma parede para ampliar a sala. Empreitada teoricamente simples, rápida e barata, mas que demandou a locação do compartimento por uma semana. 

Tudo o que você for erguer ou botar abaixo, por mais trivial que seja, abarrota uma caçamba em meia hora. Às vezes em menos tempo. É quando você se dá conta de que a locação de uma semana, o período mínimo exigido pelas locadoras, foi consumida em quinze minutinhos. Só que não interessa, você vai morrer com a locação de uma semana: 250 reais. Com o agravante de que é preciso não perder tempo para tirar a montanha de lixo da sua porta, ligando de novo para o disk-caçamba e implorando por todos os santos que levem embora o quanto antes a geringonça cheia e tragam outra vazia, pois o entulho é maior que o previsto e precisa ser removido para não atrasar a obra e não empacar o pedreiro. 

Há motivos para supor que a locação de caçambas de entulho seja o melhor negócio de que se tem notícia, desde o advento do big bang.

A caçamba é indestrutível. Se a ogiva de um míssil nuclear explodir em cima de uma delas, o míssil vai levar a pior. Não faz muito tempo, aqui perto de casa mesmo, um motorista morreu ao colidir com uma caçamba estacionada.

A conservação tem custo mínimo (resume-se à limpeza interna e à substituição periódica dos adesivos de sinalização refletivos). Sinalização que, aliás, acaba virando outra fonte de renda - funciona como mídia de divulgação do próprio serviço de caçambas e também produtos de terceiros. Elas ficam o tempo todo nas ruas e são móveis, não havendo legislação específica que regulamente a veiculação de propaganda nesse tipo de suporte. 

Mesmo com a imensa volatilidade da economia, o negócio da caçamba vai de vento em popa. Aconteça o que acontecer. Se a construção civil aquece, não há caçamba que chegue para atender a demanda. Se a temporada é de vacas magras, o jeito é reformar ou improvisar um puxadinho. E mais uma vez lá estará ela, impávida, verdadeiro monolito à frente de mansões ou de casebres.

Em todo o nem sempre rentável ciclo da obra, haverá um dono de caçamba com o bolso cheio e o sorriso largo. Imagine só uma empresa locadora que tenha uns quarenta anos de mercado. Essa mesma empresa poderá locar suas caçambas para construir uma casa, para reformá-la e também para remover os escombros de sua demolição. Isso sem falar da receita adicional com a venda do entulho para empresas de reciclagem. Não tem como não dar certo um negócio assim. 

Tudo passa, tudo é destruído, tudo vira lixo. E sempre haverá alguém desesperado, com um telefone na mão, atrás de uma caçamba para tirá-lo do meio. 


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Imagem: www.alugueldecacambasbelempa


sábado, 7 de outubro de 2017



"Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá que eu vi"
(Caetano Veloso)


O OVNI de aproximadamente 10 hectares de diâmetro foi descendo lentamente sobre Porto Seguro, no mesmíssimo lugar onde atracou a esquadra de Cabral. Embasbacando os turistas dos resorts. Atrapalhando orgias e ménages à trois. Fazendo despencar das prateleiras vodkas russas e uísques 12 anos. Interrompendo transações espúrias com dinheiro público à beira de piscinas. 

E disse o neo-pajé, de sua nave-oca:

O valoroso povo indígena já ocupou este seu mundo centenas de vezes. A última delas foi quando vocês chegaram, em 1500. Depois passamos a reencarnar em planetas mais evoluídos, como recompensa ao sofrimento suportado na tentativa de nos escravizar. Pelo respeito da nossa raça ao equilíbrio da natureza e ao convívio pacífico, evoluímos muito mais rápido do que vocês. Obedecendo à inescapável lei da ação e reação, da causa e do efeito, viemos retomar a posse do que sempre foi nosso, resgatando assim a dívida que vocês contraíram com nossos antepassados. Rendam-se, entreguem-se sem resistência. Será menos doloroso e mais inteligente de sua parte. 

Vocês encantaram nossos antepassados com espelhinhos, pentes e apitos, passando uma rasteira histórica em quem, na sua pureza, não tinha como se defender. Chegou a nossa vez de deixá-los abobalhados com as nossas bugigangas - uma ou outra maquininha barata de teletransporte intergalático, ou coisa ainda mais rasteira, pois vocês são muito primitivos e se contentam com qualquer idiotice.  

Enquanto ficam feito palermas teletransportando-se de um lado a outro, rindo-se de se matar com essa reles porcaria, nós seduziremos suas mulheres e traçaremos uma Tordesilha básica e provisória, só para fincar nossa bandeira enquanto milhões de nossa raça não chegam para colonizá-los e abduzi-los para o buraco negro mais próximo. Essa nova versão do Tratado de Tordesilhas dividirá seu território em duas partes, uma nossa e a outra também. 

Como já disse, o buraco negro será o merecido destino de vocês. Não seremos hipócritas, com a falsa bondadezinha de demarcar reservas para preservar da extinção seu povo degenerado. Gente da sua raça não vale o ar que respira. Agora, conservem-se em fila para serem marcados holograficamente e aguardarem em silêncio a hora da abdução. 



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domingo, 1 de outubro de 2017

MARMICHEF





Fazer alta culinária na baixa gastronomia. E teria outra saída? Com o preço estratosférico das trufas negras de Périgord e o poder aquisitivo do brasileiro mais ralo que caldinho de feijão em Belford Roxo, a alternativa mostrou-se tão revolucionária quanto salvadora. O que acabou inspirando pratos como Dobradin (leia-se "Dobrrrradan"), Beef au Rolex, Moela au vin e Gateau Miaux - o manjado churrasquinho de gato mal passado. Todos com a inconfundível marca da nouvelle cuisine, a partir de uma formidável e inusitada harmonização de carnes pré-podres de abatedouros clandestinos.

Estroigros, o mito, emprestou generosamente seu talento, sempre remunerado a peso de ouro, em troca de um salário de zinco. Resolveu encarar a empreitada como um esforço de guerra e um desafio descomunal à sua notória habilidade com as caçarolas. 

O custo final agradou em cheio o populacho. Como na culinária francesa a quantidade de comida é inversamente proporcional à complexidade do prato, as quentinhas eram do tamanho de uma forma de empada, permitindo jogar o preço lá embaixo. O grande problema é que um estivador do porto sai para o almoço verde de fome, disposto a engolir talheres, guardanapo, mesa e cadeira junto com a comida. E quando lhe entregavam o marmitex de grife que mais parecia uma latinha de Pastilhas Valda, irava-se com o motoqueiro e recusava-se a passar o seu cartão Sodex na maquininha, dizendo-se lesado e prometendo relatar o imbroglio todo no "Reclame Aqui". 

Para cada marmitex entregue, correspondiam quatro ou cinco posts destruidores nas redes sociais. A estratégia, a princípio tão original e promissora, ia de mal a muitíssimo pior.

E assim a coisa foi degringolando. Para entregar comida em quantidade industrial, o "grude" teria que ser de péssima qualidade - o que faria de Estroigros um ingrediente dispensável, mandando "a la merde" o único diferencial do negócio. Se continuasse primando pela excelência, seria forçado a abandonar o segmento de quentinhas e voltar ao velho QG, na esperança da crise ir embora e o cliente voltar. Estroigros não sabe o que fazer. E faltam dez para o meio dia. 



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sábado, 23 de setembro de 2017

SAUDAÇÕES, POBRES MORTAIS




CRIÔNICA: PROCESSO DE PRESERVAÇÃO EM BAIXAS TEMPERATURAS DE HUMANOS QUE NÃO PODEM MAIS SER MANTIDOS VIVOS PELA MEDICINA CONTEMPORÂNEA, SUPONDO-SE QUE A REANIMAÇÃO SEJA POSSÍVEL NO FUTURO.


Errou. Essa não é mais uma ficção envolvendo congelamento de cadáveres que a evolução científica consegue trazer de volta à vida num futuro distante. 

Enquanto cadáver congelado eu mantenho-me lúcido e pensante, tenho consciência do que quis que fizessem comigo e da minha condição de hibernante por tempo indefinido. Não respiro, meu coração não pulsa, mas o cérebro funciona e a memória permanece tão intacta quanto todos os órgãos do meu corpo, inerte e imerso em nitrogênio líquido. 

A primeira e desesperadora constatação é ter perdido a noção de quanto tempo se passou do óbito até aqui. Tudo é um breu à minha volta, provavelmente há décadas. Talvez séculos. Não o presumível breu da cápsula fechada, pois minha visão e todos os demais sentidos estão inoperantes. É a escuridão interna, o apagão generalizado do organismo, à exceção do cérebro. Ninguém sabe dessa faculdade dos criogenizados, pois ninguém jamais foi criogenizado e voltou à vida para dizer como foi a experiência. Tudo indicava que a atividade cerebral, como as demais funções vitais, cessava com o procedimento criônico. Não consideravam a possibilidade do eterno estado de alerta dos neurônios.

O sono não existe por não haver cansaço. E mesmo que o pânico em vivenciar o nada me fizesse optar pelo suicídio eu não conseguiria cometê-lo, pois qualquer movimento é impossível. A cabeça poderia até dar a ordem, mas o corpo não obedeceria. Eu teria que estourar o crânio nas paredes da cápsula e torcer para que os miolos espatifados me libertassem enfim dessa odiosa lucidez. Mas não posso me mover. 

Quanto mais eu desejo não pensar, mais eu me desobedeço. São raros os "gaps" de consciência, parecem durar segundos, quando tenho a felicidade de experimentá-los. 

VOCÊ, QUE ME LÊ SABE-SE LÁ EM QUE PONTO DO TEMPO, ESTRANHARÁ O FATO DESTE TEXTO PODER TER SIDO ESCRITO, CONSIDERANDO-SE A MINHA PERMANENTE IMOBILIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE COMUNICAÇÃO. MAS SÃO IMPRESSÕES DE UM PERÍODO DO QUAL JÁ ESTOU LIBERTO. UM TESTEMUNHO, RECONSTITUÍDO, DE UMA AGONIA QUE JÁ FOI. ME DESCONGELARAM. VIVO PARA SEMPRE. 




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Imagem: diariodebiologia.com


sábado, 16 de setembro de 2017

QUEBRA DE SERVIÇO





Com a riqueza e a fama, a gente se acostuma fácil. Duro mesmo é se readaptar ao inferno depois de uma bela temporada no paraíso. Mas agora é assim, e não há nada que se possa fazer a respeito. Material esportivo novo e à vontade? Foi-se o tempo. Enquanto um calção está em jogo, o outro - emprestado - ficou em casa de molho com sabão de ação concentrada para ver se sai uma mancha de saibro, causada por um escorregão feio na última partida. A queda, na quadra e no ranking, abriu um rasgo nos fundilhos, mas nada que uma tia velha que costura pra fora não possa resolver.

Troquei o treinador pelo paredão, e essa miserável alternativa consegue ser pior do que praticar com aquelas máquinas lançadoras de bolas (que, aliás, precisei permutar com 12 tubos de bolas Wilson, já que as três últimas que tinha estavam carecas e rachadas). Os bons tempos das nove raquetes novinhas e embaladas em plástico por partida, de 4 materiais diferentes, agora se resumem a uma filha única, de aro entortado e encordoamento frouxo. O pior é que não posso exigir muito dela nos treinos, caso contrário não sobra raquete para as partidas. 

O contrato com a Nike foi quebrado unilateralmente, e tive que assinar às pressas com a paraguaia Neki, que é quem custeia o sabão de ação concentrada para tirar as manchas dos calções - o meu e o emprestado. 

Na última partida ainda sob o contrato antigo, nem todos percebiam mas a inanição já minava a minha massa muscular, comprometendo a performance e distraindo minha atenção do jogo. Estávamos nas oitavas de final do US Open, e o juiz interrompeu a partida para dar uma raspança em um espectador que saiu do seu lugar para comprar um hambúrguer. O meu e todos os olhares do mundo voltaram-se para ele, já que ninguém pode se movimentar pela arquibancada com o jogo em andamento. A diferença é que, enquanto todos lamentavam a desconcentração causada pelo ocorrido, eu olhava salivando para aquele suculento sanduíche transbordante de recheio. Eu queria levar aquele Double Open Extra Burger para a cama e botar minha fome em luta corporal com ele. 

Até outro dia, eu só assinava autógrafos e meus assessores cuidavam do resto. Agora, vivo assinando promissórias e empréstimos bancários. O último autógrafo que dei como astro das quadras foi para o irmão de um agiota para quem penhorei todos os troféus de Grand Slam, e que ainda se lembrava vagamente da minha glória antes da decadência. 

Bem, depois prossigo este relato. O porteiro do prédio acabou de interfonar, dizendo que o representante da Laboste está subindo aqui para a minha kitnet. Veio falar sobre uma proposta de abandonar o patrocínio da Neki e assinar com a marca deles para a temporada 2018. 



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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A BEM DA VERDADE

                            Retrato do Arquiduque de Chorumelas


Ninguém há de negar que entre a história oficial e a real há sempre um abismo enorme. Nos fatos a que me atenho, alguns historiadores avaliam seu tamanho em 28 metros de altura por 12 de largura. Outros estudiosos afirmam serem superestimadas as dimensões do referido fosso, que não devem ultrapassar, segundo eles, 26,5 metros por 11,4.
Controvérsias métricas à parte, o que vem ao caso no momento são alguns episódios que urge serem publicamente reparados, especialmente aqueles relativos aos mais de 120 anos de desavenças bélicas entre o Reino de Patavina e o Condado de Lhufas.

Para que não se perpetuem injustiças, seguem alguns pontos finalmente elucidados, que desmistificam um sem número de embustes e falácias perpetrados mundo afora, o mais das vezes por gente que não tem o que fazer.

Está definitivamente comprovado que Olavinho Vai-Não-Vai, assim chamado por seu temperamento titubeante na função executiva de maneira geral e no trato com os amotinados do Levante de Aragão de modo particular, teve como conselheiro o Arquiduque de Chorumelas, e não Zolostro, o Precipitado.

A greve dos monges copistas pelo direito à meia passagem nas carroças foi na verdade julgada abusiva pelo Tribunal da Inquisição, sob o argumento de que eram desnecessários aos reivindicantes quaisquer meios de locomoção, por viverem na clausura.

Tomaso Vietri, o Flambado, recebeu essa alcunha por ter sido imolado na fogueira entre outubro de 1502 e março de 1503 (não que o supra-citado tivesse permanecido todo esse período ardendo em chamas; o intervalo de tempo refere-se à imprecisão da data de execução do mesmo).

Aqui se faça também a necessária errata e o desagravo a Isabel, a Dadivosa, durante a conhecidíssima porém nunca suficientemente estudada Batalha dos Aleijões. Célebre por introduzir no cardápio luso o mingau de seriguela, sabe-se agora que tinha por hábito tocaiar ambidestros e alocá-los nos serviços da Corte, como descascadores de beterraba, pajens dos infantes ou auxiliares dos alquimistas na produção de cicuta. Os demais – destros ou canhotos - eram mantidos nos calabouços de cabeça para baixo até que viessem a óbito por congestão cerebral ou inanição – o que ocorresse primeiro, conforme item 5, parágrafo 3 do regulamento encontrado no sítio arqueológico de Quatá.

Não obstante a veemente reprovação do Barão de Almofadinhas, coube ao cônsul Onderóques instituir em Barbapácia a lei que regulamentou a obrigatoriedade dos crachás nas armaduras, para que não se dizimasse por engano os guerreiros aliados ao invés dos inimigos. O expediente, prático e eficaz, poupou milhares de combatentes das fileiras dos Habsburgos em terras catalãs.

Lulalah, o Oneroso, cuja sangria imposta ao erário público em muito superou o volume de sangue derramado em todas as cruzadas, foi o principal responsável pela disseminação da peste marrom-clara, mais amena que a negra, sua sucessora imediata.
A afirmação, tida como fidedigna pela comunidade acadêmica, consta no diário de Catarina, a Enxerida, amante do monarca.


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