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sábado, 22 de abril de 2017

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA DO SALVA-VIDAS





- Pronto, Centro de Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois nossas linhas estão congestionadas.
- Tô sem vidas pra salvar. Antes tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?
- Entendo sim. E como entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje. Ontem foram trinta e cinco.
- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo, banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.
- Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?
- Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um gordo só. Bem ou mal estaria honrando o salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, um verme sem serventia, um chupim do orçamento da prefeitura. A senhora, como contribuinte, não se sente explorada? Por favor, me ajude, faça alguma coisa.
- Meu amigo, por acaso a culpa é sua se está tudo bem? Você saberá cumprir o seu dever, caso aconteça alguma coisa. Por que você não faz um curso de aperfeiçoamento, um módulo mais avançado pra sua função? Sei lá, ou então abra-se a novas possibilidades de relacionamento... uma respiração boca-a-boca com alguém atraente do sexo oposto, sabe como é, salva-vidas também é gente.
- Sei, sei. Vem ver as coisas que me aparecem pra salvar, vem ver. Isso quando aparece, né. A praia aqui é de periferia, minha filha. É a maior relação dentadura por banhista da América Latina.
- Você também podia pedir transferência pra algum lugar com mar mais agitado, tipo aquelas praias de surfistas em Saquarema.
- Mais alguma alternativa?
- Temos sugerido com frequência a pintura de paisagens marinhas em aquarela. O único problema é o salva-vidas se distrair demais com o hobby e não prestar atenção ao serviço.
- Chega, essa foi sua última chance. Não me convenceu, o buraco no meu caso é mais embaixo.
- Pelo amor de Deus, mude de ideia. Se não por você, pelo menos por mim.
- Como assim?
- Nosso índice de reversão das tentativas de suicídio nos últimos seis meses é de apenas 4,9%. Caso não consigamos melhorar esta estatística, nossa equipe toda será demitida. Você não está mesmo querendo salvar vidas? Pois então, sua oportunidade é agora. Salve a nossa, moço!
- Jura que é verdade? Não está dizendo isso só pra dar uma levantada na minha autoestima? Este argumento está me cheirando a script decorado aí da equipe de atendimento.
- Onde você está no momento?
- Estou aqui, no meu posto de observação, falando do celular. Mas com um cano de revólver enfiado no outro ouvido. Tem até um pessoal lá embaixo olhando desconfiado pra mim.
- Calma, segura a onda.
- Bom, isso é tudo o que eu queria, se houvesse alguma pra segurar.
- Moço, olhe pra trás. Guardas-noturnos, ex-boxeadores, enroladores de bobinas de transformador, mulheres barbadas de circo e outros suicidas contumazes bem que gostariam de estar no seu lugar, só aí, de frente pro mar... considere-se um privilegiado.
- Poupe o seu latim para um caso menos perdido que o meu. Além do mais, meu crédito está acabando.
- Me dá seu número que eu ligo!
- Vai dar caixa postal.


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sábado, 15 de abril de 2017

ATAQUE DAS FORMIGAS ASSASSINAS



Um novo tipo de golpe baixo anda roubando o sono dos empresários. Dos grandes, médios, pequenos e até dos MEIs. Trata-se do já famoso e polêmico marketing multinível, também conhecido como pirâmide, só que aplicado à difamação. À mais instantânea e eficaz difamação. 

Embora exija um certo rigor logístico, o funcionamento é basicamente simples. O entrante elege o concorrente que mais o incomoda em sua área de atuação, elenca um rol de calúnias a seu respeito e passa a fazer parte da "engrenagem", digamos assim. 

Na qualidade de noviço no esquema, o indivíduo terá como tarefa inicial destruir a imagem de aproximadamente 120 produtos ou serviços, via mensagens enviadas aos serviços de proteção ao consumidor. É o trabalho braçal das "formiguinhas" que compõem a base. Feito isso, aguardará uns três meses até que chegue ao topo da pirâmide e seja a vez do extermínio do seu concorrente de mercado, quando centenas de milhares de supostos consumidores insatisfeitos entrarão simultaneamente no "Reclame Aqui" e congêneres com quatro pedras na mão e ávidos por linchar o seu desafeto comercial. 

O sistema conta com uma base de quase 500.000 integrantes. Cada um deles com o seu IP, que é o que dará legitimidade estatística à coisa. É a fraude perfeita, não tem como dar errado. A exemplo de toda pirâmide bem arquitetada, o sujeito entra realmente comprometido em fazer sua parte porque sonha com a contrapartida quando chegar ao topo. É o gostinho da sabotagem que alavanca o processo, e tudo acaba funcionando com a precisão de um relógio suíço.

Outra segurança importante é que, mesmo sendo falsos, os relatos não parecerão forjados, pois as reclamações terão estilos diferentes. Cada  participante receberá instruções orientando quanto aos pontos que deverão ser criticados, escrevendo à sua maneira.

O poder de destruição é incomensurável. Por mais que a empresa-vítima apresente desenvoltura de defesa, o ataque em massa de “clientes lesados” arrebenta a sua imagem da noite para o dia. Como o que cai na internet jamais desaparece, o dano à marca é tamanho que é mais fácil começar do zero do que tentar juntar os cacos. 


*Esta é uma obra de ficção. Por enquanto.




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sexta-feira, 7 de abril de 2017

NA ESTEIRA DO MESTRE




O "grande estalo" me ocorreu quando conversava, dia desses, com um discípulo desgarrado da seita. Ele reconheceu-me na fila do açougue, enquanto aguardava que me embrulhassem 500 gramas de coraçãozinho.

- Venerável Duña, manancial infindável de sabedoria, guru dos gurus, mestre dos mestres... como está Vossa Divindade?

E, olhando ansioso para o relógio, prosseguiu sem me deixar responder:

- Ando meio sem tempo de cultuar o Oráculo, sabe como é, essa vida corrida da gente... mas estou na esteira de seus ensinamentos!!! E lá se foi apressado, com seus dois quilos de patinho moído debaixo do braço.

Aquilo me abriu na mente um clarão mais luminoso que pôr do sol de calendário de quitanda. "Na esteira dos ensinamentos"... É isso!!!! É isso!!!! Genial e profético: os ensinamentos deveriam estar na esteira!!!!

De imediato passei a caraminholar, com os botões do meu desbotado hábito, de que forma colocaria em prática aquela beatífica ideia.

Já há tempos vinha quebrando a cabeça, em busca de alternativas que impulsionassem a divulgação da doutrina duñesca pelos quatro cantos do globo. Doutrina que, como todos sabem, foi codificada por Juan de la Duña, meu bisavô materno, e pode ser sintetizada na máxima "O espelho da vida é a sombra do infinito". 

Utilizar as esteiras das academias de ginástica como veículos dos ensinamentos sagrados seria a salvação da minha lavoura de jiló. Isso era indiscutível. Imaginava o fim das humilhantes pregações nos semáforos, tentando arrebanhar adeptos em meio a buzinadas e xingamentos. As esteiras fariam esse papel, enquanto eu e os demais Veneráveis da Ordem cuidaríamos de missões mais nobres e estratégicas.

Meu plano, concebido dois dias depois enquanto desenrolava um fardo de arame farpado na roça do Noviço Hector, consistia nos seguintes pontos: 

. Os principais enunciados e dogmas da seita seriam estampados nas esteiras ergométricas, prefrencialmente em letras amarelas para facilitar a leitura sobre o fundo preto. De tal forma que o usuário, ao acionar o equipamento para exercício, os tivesse literalmente a seus pés - um após o outro. As mensagens iriam se sucedendo, em efeito quase hipnótico na mente do aluno, repetidamente, até se entranharem no subconsciente. 

. Com isso, teríamos um duplo ganho: a disseminação do verbo duñesco junto aos jovens frequentadores de academias, e a diminuição do tédio da rapaziada fitness, já que o fato de caminhar ou correr em esteiras sem ter alguma coisa para ocupar a mente é geralmente monótono e desestimulante. 

. No caso de academias maiores, que contam com monitores de TV ou telões à frente das esteiras, adaptaríamos as mensagens sapienciais às telas. Mil vezes melhor e mais edificante assistir aos ensinamentos duñescos do que às persversões dos videoclips, aos cacarejantes cantores de forró universitário ou o nada saudável bate-estaca da música eletrônica. 

. Uniríamos, assim, o culto da forma física à saúde espiritual – o que seria um diferencial das academias para a fidelização de seus clientes. 

Eu, o Duña, venerável e sapientíssimo, profetizo desde já um futuro celestial para a nossa congregação.



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Imagem: https://commons.wikimedia.org

sábado, 25 de março de 2017

YOU HAVE A NEW MESSAGE




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Um quarto de lexotan, um quase nada, se você mastigar a calma vem na hora - como uma fada invadindo a sala entre tules e incensos. Eu disse, dei a dica, ela no fundo ignora cem por cento do que falo. Lá está, com seus dois olhos que nem piscam, vidrados no monitor do notebook e dando o comando de atualizar página a cada quarenta segundos. Ainda se esperasse algum resultado de biópsia, mas não. Era a ansiedade sem causa aparente, a mim e a quem mais chegasse e não soubesse o que exatamente ela aguardava. E dá-lhe doze emails do groupon, cinco das lojas americanas e suas black, blue, white and pink fridays. Adidas e sua coleção da nova temporada, o mundos é dos nets mas poderia ser dos pets, uma ninhada de beagles nessa campanha. Ela se ajeita na cadeira, respira fundo, faz um alongamento de cervical e fecha os lindos olhos muito mais meus que dela. E a mais certa de todas as verdades do mundo é que se trava agora um duelo entre seus lados - um ansiando para que a mensagem chegue e o envelopinho pisque e outro que desejaria tudo menos a angústia de abri-lo e deparar-se com a crueza cortante do que já adivinhava. Aquilo que não queria ver, se chegasse, mas que acabaria com a morte lenta dessa espera, esse desacontecer fatal. Definitivamente o Criador não desenhou suas criaturas para a paciência.



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Leve três pares de sapatênis por 199,90. Assine a petição do Greenpeace pelo Santuário das Baleias do Atlântico Sul, shoptime, peixe urbano, tecnomídia, bradesco previdência. Alterna agora entre o "verificar emails" e o F5 do teclado, para variar um pouco. Olha pra mim um instante, vai. Que seja só de soslaio, mas dá um fiozinho de atenção e dormirei nas nuvens. Saiba do aflito que viro vendo a aflição sua. Agora ela cabeceia, começa a "pescar", rendida ao cansaço vão. Desperta com o apito da ronda noturna, limpa os óculos redondos. Parece estar rezando, mas será? Um milhão de caixas de bombons suíços em troca de cinco minutos dos seus pensamentos. Ser feliz pode ser simples: deixa que seja minha essa mensagem que não vem.



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Imagem: stopthespeaker.com

sábado, 18 de março de 2017

ME LEVA PRO VELHO TESTAMENTO




Sim, o mundo estava há milênios da invenção da penicilina. O sujeito nascia e já tinha tudo pra cair duro, mortinho da silva, tamanha era a falta de recursos na saúde e na ciência. No entanto, a "morte morrida" custava demais a chegar. E isso é a Bíblia que atesta. 

Vamos a uma breve relação de patriarcas longevos do Antigo Testamento e a idade em que respectivamente bateram a caçuleta: Adão, 930; Seth, 912; Enos, 905; Cainan, 910; Mahalalel, 895; Jarede, 962; Enoque, 365; Lameque, 777; Noé, 950; Sem, 600; Arpachade, 438; Selá, 433; Éber, 464; Pelegue, 239; Reú, também 239; Serugue, 230; Naor, só 148 - deve ter morrido na creche ou no balão pula-pula; Terá, 205; Abraão, 175; Isaque, 180. Por fim o campeoníssimo Matusalém, que, sem grandes cuidados com a carcaça, chegou à impressionante marca de 969 aninhos.

Fica claro que o modus vivendi pré-diluviano, por mais que se julgue hoje primitivo, era muito mais saudável e contribuía para a longevidade. Não é nem questão de deduzir. É fato, a menos que não se leve a sério a Palavra Sagrada ou que se prove que o tempo passava mais rápido naquela época. 

A comunidade científica estufa o peito e convoca a imprensa para apregoar, orgulhosa, que o homem em breve (e esse em breve não raro significa daqui a uns 50 anos) alcançará 120 como expectativa média de vida. Belo chabu. Com essa idade Matusalém era um feto e o respeitável Mahalalel ainda enchia as fraldas no berço. 

O bicho homem do século 21, com toda a sua expertise em descobrir geringonças e fármacos que o possibilitem viver mais e melhor, nem arranha os recordes etários desses heróis do Gênesis.

É ainda uma incógnita a razão por que, naquele mundo ainda intocado de meu Deus, a decrepitude e a morte custavam tanto a chegar. Uma explicação talvez seja porque a carne dos bois, porcos, ovelhas, bodes, cabras, aves e assemelhados de antanho estivessem a salvo dos conservantes, dos ácidos cancerígenos e demais porcariadas que disfarçam a podridão da carne vencida que comemos - produzida, empacotada com carimbos sanitários fraudulentos e exportada mundo afora pelos nossos grandes, assépticos e incorruptíveis frigoríficos. O bom e velho Cainan conhecia seus bichos de abate e sabia muito bem o que botava em sua mesa. Ele e seus centenários amigos eram os caras. 



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sábado, 4 de março de 2017

DIÁRIO, SEU INÚTIL



Escrever um diário pressupõe a tentativa de não deixar tudo por conta da volátil memória humana, de capturar um pouco do que se vive hoje para degustação futura. Isso significa registrar o que de objetivamente acontece mas também, e principalmente, o subjetivo de cada experiência - ou pelo menos dos acontecimentos principais. Sem esse detalhamento, um diário não tem função.

Se excessivamente sumário, um típico dia de semana de um sujeito de classe média, com perfil no instagram e vacinado contra caxumba, traria algo assim:

05 de maio de 1980, segunda-feira. Acordei às seis. Exercício das 6h05 às 6h35. Café da manhã. Trabalhando das 8 às 12h. Almoço das 12 às 14h. Trabalhando das 14 às 18. Jantar. Assistindo televisão até 23h30. 

Imagine isso sendo lido décadas depois. Sem detalhamento essa descrição de tarefas não signficará nada, pois não reconstituirá aquele dia na mente de quem o viveu. Pior: levando em conta o fato de que a rotina, justamente por ser rotina, tende a se repetir, todos os registros serão muito iguais - à exceção de um ou outro episódio mais marcante, a ser resumidamente descrito pelo preguiçoso memorialista. De onde se conclui que um diário é tanto mais eficiente quanto mais detalhado puder ser. 

Por outro lado, partir para um diário excessivamente descritivo também será perda de tempo. Vamos supor um início de diário aos 20 anos e término aos 70. Calculando uma expectativa de vida de 80, nosso registrador de fatos terá apenas 10 anos para ler o relato em detalhes de tudo o que vivenciou ao longo de 50. Afinal, foi com a intenção ler um dia suas recordações que ele decidiu encarar a empreitada. Acontece que não faz sentido ele gastar seus últimos 10 lendo o que viveu, ao invés de viver o que lhe resta. Parece exagero falar em 10 anos de leitura. Porém, por mais que geralmente sobre mais tempo aos idosos, eles tendem a executar tudo mais lentamente, e a depender da prolixidade do diário, será essa a sua tarefa principal até bater as botas. 

A inutilidade do diário não para por aí. Relatos detalhados incluem opiniões do autor a respeito de outras pessoas, nem sempre muito elogiosas. Deixar isso por escrito para a posteridade pode ser perigoso, comprometedor e, dependendo do naipe dos personagens, trazer boas encrencas jurídicas. Para evitar aborrecimentos, seu dono terá que exterminá-lo antes de morrer. E se morrer de repente não poderá fazê-lo, deixando de herança uma bomba de imponderável potencial de destruição.

04 de março de 2017, sábado. Se pensa em começar o seu, desista. Se já tem, toque fogo. 




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Imagem: mercadolivre.com.br


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

ANJOS ACHAM DIFÍCIL MANTER A GUARDA



Veja como são as coisas. Há cinquenta anos - e isso é um piscar de olhos nas cronologias serafínica e querubínica - , cada anjo dava conta de guardar dois, três, até mais viventes de carne e osso. A vida era calma e o perigo era pouco. Agora, se bobear é preciso um regimento dos nossos para pajear cada humano. E o déficit funcional se vê em todas as esferas celestes, entre os anjos da guarda municipal, estadual e federal. 

Quanto mais a humanidade inventa traquitanas e afazeres, mais perigo se corre e mais desavisados temos que ficar puxando da beira do precipício. Os malditos smartphones são os piores exemplos do que estou dizendo. Eles distraem a atenção de todos o tempo todo, nos deixando em sobressalto, sem saber a quem acudir primeiro e sem poder pregar olho para recuperar as forças. Crianças não fazem seus deveres, casais brigam sem motivo, velhinhos deixam de jogar damas para fazerem a alegria dos hackers nos sites de banco e lojas virtuais. É só cilada, uma atrás da outra. 

A mesma tecnologia que dá inteligência a celulares está produzindo gerações de acéfalos. E joga milhões de profissionais para as estatísticas dos economicamente inativos. O desemprego deixa as pessoas desorientadas pelas ruas, o que nos obriga a ficar virando seus pescoços para os dois lados a cada cruzamento que atravessam, para não aumentar ainda mais os já estúpidos índices de acidentes.

A eleição do zen-budista Donald Trump, somada à incontestável sanidade mental daquele ditador norte-coreano, fez soar a trombeta de alerta máximo aqui nas nuvens. As chances de um tilt global e irreversível são todas e mais algumas, e não há previsão para publicação de edital para contratação de novos anjos da guarda. O último aconteceu lá pelos idos da revolução francesa e, embora sejamos eternos no cargo, a população aí embaixo é  extraordinariamente maior que o nosso efetivo. Só para se ter uma ideia: em 1800, o mundo contava com 978 milhões pessoas, enquanto que hoje só na China são um bilhão e quatrocentos milhões. E o nosso exército angelical permanece com o quadro inalterado...

Outro agravante é a expectativa de vida. Apesar de estarem correndo cada vez mais perigo, estranhamente vocês estão conseguindo viver muito mais. É um paradoxo, mas é verdade. A evolução da medicina e das tecnologias envolvidas nos sistemas de segurança viária talvez expliquem um pouco essa intrigante realidade. O fato é que, mais uma vez, sobra para nós. Além de cada um dos nossos se ocupar de mais gente, essa mesma gente não veste o paletó de madeira de jeito nenhum, e está vivendo o dobro de seus bisavós. Junte a isso as maternidades abarrotadas de recém-nascidos e chegamos a uma situação caótica, beirando o descontrole absoluto. De anjos da guarda estamos nos transformando naqueles caras que ficam girando pratinho no circo. Tire esse riso da cara, por favor. O assunto é sério, e você ri porque não é com você. 



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