sábado, 26 de maio de 2012
Assis Valente,
aquele gênio nem sempre lembrado da MPB, era o ídolo e a inspiração deles.
Tinha um quadro em lugar de destaque na sede da associação, da qual era patrono
oficial.
Para quem não sabe,
Assis Valente tentou suicídio em 1941, saltando do morro do Corcovado. Na
queda, quicou na copa de uma árvore, frondosa o suficiente para amortecê-lo e
livrá-lo do sono eterno. O ex-futuro morto teve que administrar o próprio
chabu, que rendeu-lhe não mais que umas costelas quebradas. Foi um caso único
no até então 100% fatal cartão postal do Rio. Não bastasse ser uma figura
conhecida na cena carioca de sua época, ganhou as páginas dos jornais no dia
seguinte como o único sujeito a escapar da morte pulando do famoso morro. Viveu
mais algum tempo, o suficiente para legar à humanidade mais algumas dezenas de
obras-primas. Após nova empreitada cortando os pulsos, igualmente fracassada,
partiu para a terceira tentativa em 1958 - esta certeira, ao pôr do sol na
Praia do Russel, se contorcendo sob o efeito de um gole de guaraná batizado com
formicida.
Como o autor de
"Camisa Listada", aqueles homens, ali reunidos, carregavam o
infortúnio de terem tentado e não conseguido dar fim à existência. Dividiam o
peso da humilhação suprema: retornar do gesto abominável com o rabo entre as
pernas. Situação constrangedora. Não bastasse o fracasso na vida, tinham
fracassado também na morte.
Era vergonha demais,
precisavam lavar a desonra com sangue, mostrando aos amigos e parentes que não
mudaram de ideia e não se acovardaram. Longe disso: eram duplamente corajosos
para buscarem, outra vez, o tão sonhado paletó de madeira.
Naquela assembleia
ordinária, deliberaram um revide à altura. E bota altura nisso: os 324 metros da Torre
Eiffel. Partiriam em excursão para Paris, os 21 frustrados suicidas, e
saltariam de algum ponto menos vigiado do monumento em 3 grupos de 7 - de mãos
dadas e no melhor estilo "um, dois, três e já!". Só não teriam muito
tempo para ensaiar a coreografia macabra, sob risco de descobrirem e
interceptarem o seu intento com o ostensivo esquema de segurança da torre.
Seria o primeiro
suicídio sincronizado da história. Os saltos seriam filmados pelo guia
turístico do grupo, também simpatizante da prática suicida mas ainda não suficientemente
apto à derradeira atitude. A este caberia, ao fim do espetáculo, entregar a
filmagem à imprensa, bem como os 21 envelopes com as últimas palavras dos
herois aos remanescentes da raça humana.
Porém, o destino foi
de novo caprichoso. Ao se afastar andando para trás, procurando um melhor
ângulo para a foto, o guia acabou despencando sem querer, antes dos 21. Pronto:
soou a sirene, a polícia foi acionada e a turma toda convocada para
interrogatório, no inquérito para apurar a causa do acidente. Ficou adiada a
revanche, e com ela a lavagem da honra.
© Direitos
Reservados
Em tempo: já que falamos dele, fica a dica
para conhecerem a fantástica obra de Assis Valente. Um legado que vai muito
além do "Brasil Pandeiro", sua música mais executada. Grande Assis.
Imortal, ainda que suicida.
Marcelo Pirajá Sguassábia é
redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e
eletrônicas.
Blogs:
www.consoantesreticentes.blogspot.com
(contos e crônicas)
www.letraeme.blogspot.com
(portfólio)
Email: msguassabia@yahoo.com.br
sábado, 19 de maio de 2012
Ilustração: Thiago Cayres
Passada a consternação que assolou o país com o desaparecimento de um dos maiores nomes de nossa música, a família de Wandu deu entrada na tarde de ontem ao processo de inventário, para a partilha do patrimônio do artista.
Passada a consternação que assolou o país com o desaparecimento de um dos maiores nomes de nossa música, a família de Wandu deu entrada na tarde de ontem ao processo de inventário, para a partilha do patrimônio do artista.
Na
busca por bens e direitos do falecido em cartórios e juntas comerciais, apurou-se
que, além de proprietário de duas linhas de telefone celular e do título do
Clube de Campo Apogeu da Paz, Wandu era sócio majoritário de uma obscura e
deficitária fábrica de giz em Mairiporã, na Grande São Paulo, da qual lhe eram
creditados mensalmente R$ 1.230,14
a título de pró-labore até o mês de julho de 2009,
quando cessaram tais provimentos.
Familiares do cantor afirmam que sua decisão em associar-se à empresa deveu-se a dois fatores. O primeiro, a diversificação estratégica dos seus investimentos pessoais (como ele mesmo dizia, "é preciso colocar os ovos em várias cestas"). O segundo seria prover o fornecimento de gizes coloridos e de boa qualidade para uso exclusivo em suas turnês, já que Wandu tinha por hábito escrever com giz as letras de suas músicas no chão do palco, para que não se atrapalhasse nas apresentações.
Como é de conhecimento público, o finado mantinha em sua posse uma extensa coleção de peças íntimas femininas, em especial as vulgarmente chamadas "calcinhas", que lhe eram arremessadas pelas fãs quando de suas apresentações Brasil e América Latina afora.
Contadas e catalogadas, as referidas peças somaram um total de 78.288.935 (setenta e oito milhões, duzentas e oitenta e oito mil, novecentas e trinta e cinco) unidades - de cores, formatos e modelos sortidos, algumas inclusive do tipo comestível.
Não havendo nenhum herdeiro legítimo ou requerente legalmente constituído que se habilitasse a ficar com o lote, o Estado determinou encaminhá-lo a instituições de caridade voltadas ao público feminino, de creches municipais a presídios federais, procedendo antes a uma triagem para separar as peças íntimas por faixas etárias:0 a
7, 8 a 19,
20 a 48, 49 a 62, 63 em diante. O
Ministério Público, no entanto, solicitou que do gigantesco montante fossem
separados ao menos uns sete ou oito contêineres de calcinhas para doação a
universidades e centros de pesquisa, por constituírem valioso material de
estudo fúngico-bacteriológico pelas áreas de urologia e ginecologia.
Some-se a estes fatos a descoberta de um testamento, lavrado há cerca de três anos no 2º Cartório de Jacarezinho, que pode trazer novidades ao processo de divisão do espólio do cantor. Seu teor diz respeito especificamente ao bem de maior valor arrolado no inventário, ou seja, os direitos autorais da canção "Moça" - sucesso de 1975 executado até hoje nos mais distantes rincões deste país continente. Consta do documento que a citada "Moça" que dá título à composição existe de fato (ainda que, passado tanto tempo, poderia atualmente ser chamada "Velha", isso se ainda estiver viva). O nome da dita cuja, seu RG, CPF e título eleitoral estão discriminados no testamento, sendo que a beneficiária deverá apresentar-se à justiça para que se proceda à aferição dos seus dados e lhe sejam concedidos os royalties doravante arrecadados pela obra.
Familiares do cantor afirmam que sua decisão em associar-se à empresa deveu-se a dois fatores. O primeiro, a diversificação estratégica dos seus investimentos pessoais (como ele mesmo dizia, "é preciso colocar os ovos em várias cestas"). O segundo seria prover o fornecimento de gizes coloridos e de boa qualidade para uso exclusivo em suas turnês, já que Wandu tinha por hábito escrever com giz as letras de suas músicas no chão do palco, para que não se atrapalhasse nas apresentações.
Como é de conhecimento público, o finado mantinha em sua posse uma extensa coleção de peças íntimas femininas, em especial as vulgarmente chamadas "calcinhas", que lhe eram arremessadas pelas fãs quando de suas apresentações Brasil e América Latina afora.
Contadas e catalogadas, as referidas peças somaram um total de 78.288.935 (setenta e oito milhões, duzentas e oitenta e oito mil, novecentas e trinta e cinco) unidades - de cores, formatos e modelos sortidos, algumas inclusive do tipo comestível.
Não havendo nenhum herdeiro legítimo ou requerente legalmente constituído que se habilitasse a ficar com o lote, o Estado determinou encaminhá-lo a instituições de caridade voltadas ao público feminino, de creches municipais a presídios federais, procedendo antes a uma triagem para separar as peças íntimas por faixas etárias:
Some-se a estes fatos a descoberta de um testamento, lavrado há cerca de três anos no 2º Cartório de Jacarezinho, que pode trazer novidades ao processo de divisão do espólio do cantor. Seu teor diz respeito especificamente ao bem de maior valor arrolado no inventário, ou seja, os direitos autorais da canção "Moça" - sucesso de 1975 executado até hoje nos mais distantes rincões deste país continente. Consta do documento que a citada "Moça" que dá título à composição existe de fato (ainda que, passado tanto tempo, poderia atualmente ser chamada "Velha", isso se ainda estiver viva). O nome da dita cuja, seu RG, CPF e título eleitoral estão discriminados no testamento, sendo que a beneficiária deverá apresentar-se à justiça para que se proceda à aferição dos seus dados e lhe sejam concedidos os royalties doravante arrecadados pela obra.
© Direitos
Reservados
Marcelo Pirajá Sguassábia é redator
publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
Blogs:
www.consoantesreticentes.blogspot.com
(contos e crônicas)
www.letraeme.blogspot.com
(portfólio)
Email: msguassabia@yahoo.com.br
sábado, 12 de maio de 2012
ENSEBADO
Google Imagens
Troco numa boa mil megastores de livros novos com cybercafés
por um sebo mal arrumado e labirintuoso. Daqueles encravados nos centrões das
metrópoles, com as paredes caindo aos pedaços como os volumes que abrigam. Até
meados dos 80, nos sebos a gente só encontrava livros e revistas. Hoje tem
vinis, CDs, fitas de vídeo e até DVDs. Muitos têm brinquedos usados, jogos de
tabuleiro, vitrolas. Outros dividem espaço com brechó. Mas sempre sebos,
honestos sebos, sem nenhum vendedor chato querendo te empurrar os últimos
lançamentos.
O que frequento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.
Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o frequentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.
O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.
Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no36” . Parece morador de prédio
falando no interfone com o porteiro.
Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?
Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Pedro querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”
Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Pedro pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.
Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão?
O que frequento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.
Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o frequentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.
O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.
Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no
Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?
Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Pedro querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”
Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Pedro pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.
Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão?
Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro. Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você escolhe, compra e entregam em casa.
Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e outro que pincei um DVD de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar, onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela internet.
© Direitos Reservados
Marcelo Pirajá Sguassábia é
redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e
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sábado, 5 de maio de 2012
ANÁLISES CÍNICAS
I
Não tenho nada a perder, daqui a
pouco vou dar um basta definitivo na minha vidinha sem parasitas, vírus, fungos
e meningococos. O negócio agora é bagunçar esse coreto arrumadinho de tubos e
lâminas, botar desordem na casa. É minha forma, ainda que um tanto sinistra, de
deixar minha marca por onde passei. Gastei décadas nesse insípido cenário
branco e esterilizado, onde se coletam temores e esperanças da vida lá fora. Se
não posso mudar meu destino, mudarei o dos outros. De desconhecidos outros -
para melhor ou para pior. Perdoem-me, tenho que fazer isso.
II
Misturando a amostra da Denise com
a do Tácito Luiz... isso, lindo blend,
a coloração tá ótima. Nunca se viram e firmam agora um pacto de sangue, quem
diria. A hepatite dele passa a ser dela, a anemia dela também é dele. É bacana
essa fraternidade, essa solidariedade mórbida me deixa com lágrimas nos olhos.
Cada um entrou aqui com uma doença e voltarão os dois com dupla enfermidade.
Agora, ao microscópio. Olha como tá de micose essa lâmina, Deus do céu. Mas
como é difícil de tratar mesmo, digo no diagnóstico que não tem nada - assim o
velhinho não perde tempo nem dinheiro tentando à toa acabar com esses fungos.
Parece tão boa gente, não merece essa esfrega. Além do mais, disso ele não vai morrer
mesmo.
III
Carcinoma hepatocelular, isso já
deve estar em fase de metástase brava... deixa eu ver no facebook o perfil
desse infeliz. Festa, churrasco, pescaria, ê vidão... deve enxugar uma cana
lascada pra ter o fígado nesse estado. O laudo vai desenganar o cara, e não vai
ter tratamento que dê jeito com a situação nesse pé. Tantos amigos e
solicitações de amizade, que judiação. Não sou eu que vou estragar o seu
restinho de tempo por aqui. Então vamos lá, meu camarada... "Aspecto
benigno, não observados indícios de neoplasia". Só aquele alívio na hora
de abrir o envelope já é meio caminho pra melhorar muito o ânimo desse coitado.
De notícia ruim já chega o Jornal Nacional. Maravilha, perfeito... agora o face...
vou pedir pra me adicionar. Pode até não me aceitar como amigo, mas com certeza
sou o melhor que ele já teve.
IV
Quintana Rubininsky... tinha um
escroto no colégio com esse sobrenome. Se for parente, aí vai a maldição -
tasco-lhe um positivo para HIV, tá bom pra você, querido? Vida louca, sem juízo
dos infernos, se não tivesse má conduta o seu urologista não pediria o teste
para afastar a suspeita. Aí vai, com toda a minha gratidão. É preciso que
entenda que não é por mal, só estou fazendo minha parte pra tornar o mundo um
lugar melhor.
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sábado, 28 de abril de 2012
ESTAÇÃO PARADISO
Abre com lua e estrela, a pleno
brilho em lugar qualquer. Clima de épico bíblico. Cena 2: panorâmica nos
trilhos da linha azul do metrô. O filme dentro do filme dentro do filme. Metrô
é espaço de passagem e não de saudosismo, destrói sem dó pessoas, memórias e o
que restar de humano na meia dúzia de desolados a esperar na plataforma.
Ninguém "é" estando ali, fica-se provisoriamente. Centenas de cópias
piratas de DVD do monumento de Tornattore, prontas para serem esmagadas pelo
próximo trem. Do jeito que fazem quando a Polícia Federal apreende contêineres
de ray-bans falsificados. Travelling lento. Slow. Fusão para mim, dizendo em
off algum lamento indecifrável. Uma cópia de cinquenta centavos do Cinema
Paradiso não deixa de ser uma irônica continuidade dele. A banalização da
permanência, diria o crítico com ar blasé ajeitando os óculos. A saga das
películas salvas e guardadas, as âncoras enferrujadas na conversa dos dois na
praia, o ancião cego ordenando que o menino vá embora da aldeia e não olhe para
trás. A ferrugem da âncora, metáfora. Totó morreu do coração após aquele choro
todo vendo as cenas de beijos censuradas pelo padre - imprevisto que não
constava no roteiro. Ennio Morricone é outro que pode morrer em paz depois da
trilha que fez, ela também nos trilhos agora, esperando a morte vestida de
bites. Ninguém quase soube quando há meses um estilhaço de meteorito colidiu
com o estacionamento onde fora o Nuovo Cinema Paradiso, que por sua vez era a
reconstrução do antigo que pegou fogo. Pegaram fogo o velho cinema e o velho
Alfredo, queimados o celulóide e o projecionista. Um dedo de poeira acumulada
sobre a ruína da ruína da ruína. Daqui do buraco da estação eu sei que chove lá
fora, no pavimento dos autos. É triste, não gosto. Quero de volta o meu
ingresso, trazido pelo Totó menino com vestes de coroinha que vem chegando de
bicicleta.
© Direitos Reservados
sábado, 21 de abril de 2012
A LUNETA
Foto: HBO Voyeur Project
Na embalagem havia um enorme splash, onde se lia: “Montagem fácil e rápida”. Bom, dois dias e duas noites não é tanto tempo assim. O suficiente para encaixar nos lugares certos as lentes, roldanas, parafusos, porcas e cilindros de diferentes calibres e tamanhos.
Custou mas valeu, telescópio e tripé montados. Agora, ao desfrute. Ao merecido desfrute - porque que de ferro, só a luneta. Marca Superrvision, zoom de 1600 vezes, nitidez absoluta.
Primeira parada. Uma enfermeira dando comida na boca de uma velhinha em uma cadeira de rodas. Ai, que estréia mais sem glamour. E a enfermeira era mais velha que a velhinha.
No apê ao lado, uma bruta discussão. O engraçado era ver apenas as bocas se mexendo, os braços gesticulando, os socos na mesa, os rompantes coléricos e não ouvir absolutamente nada. Pastelão de cinema mudo, só faltou torta na cara.
Vamos lá, meu povo, cadê a sem-vergonhice? Duas horas e quinze e nenhuma mulher sem sutiã passando do banheiro para o quarto. Nem uminha. Tá louco, era o caso de devolver pro fabricante. Telescópio que se preze não faz um papel assim.
Três andares acima, um cara solitário no sofá, o nó da gravata meio afrouxado, à frente de uma TV de plasma. A lente é poderosa, dá pra ver a programação que o sujeito está assistindo. A sala escura, ele zapeia. A luz do aparelho refletida em seu rosto se altera a cada mudança de canal. Enfia um dedo no nariz. Que nojo, não volto mais na sua casa, seu sem-educação. Isso são modos?
No quinto andar havia uma loira de tirar o fôlego, há tempos já a observava a olho nu. A vadia não saía do quarto, dando mole pro primeiro telescópio que se habilitasse. Mais que depressa, zoom máximo na dita cuja. Era loira mesmo, e seria perfeita se não fosse um pôster. Duplo azar: além da mulher ser de papel, o quarto com certeza era de macho. Castigo pouco é bobagem.
Na noite seguinte, a caçada continua. Ao mirar no décimo-sexto andar do Edifício Itapuã, sua luneta dá de cara com uma outra luneta apontando exatamente para ele. Sim, tinha certeza que era pra ele. O voyeur do voyeur, a perversão das perversões.
Assim que os olhares telescópicos se cruzaram, tentaram até fingir que não se viram. Uma luneta virou pra esquerda, outra pra direita, como se assobiassem, disfarçando.
Depois de umas dez janelas sem nada de interessante à vista, ele finalmente achou algo com que se entreter. Após um prolongado “Nooooooooooosssa!”, ali parou e ficou. Puxou até uma cadeira pra se acomodar melhor.
- Vai, vai, vai...
Uma voz feminina e muito familiar responde ao seu ouvido:
- Vai o que, Claudinho?
Era a esposa. Ô mulher pé de pluma. Quando deu pela presença, já estava no cangote. Mão na cintura, cobrando esclarecimento.
- Vai? Ah, sim. Vai logo, planeta, aparece logo, planeta...
- Planeta? Até onde eu saiba não tem planeta nenhum desse lado do céu. E mesmo se houvesse, esse prédio enorme aí em frente não ia deixar você ver nada.
- Nossa, é mesmo. Nem tinha reparado.
- Mãos ao alto, seu safado. Não mexe um milímetro nessa porcaria. Deixa eu ver o que você está vendo. Sai daí, sai daí!
Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.
- Sabe como é, testando o foco, querida...
E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
CLUBE DA ESQUINA, 40
Foto: http://www.museuclubedaesquina.org.br/
A agulha sulcando o vinil é arado rasgando as serras das Gerais - sem meias medidas, num quase estupro consentido. Segue a girar como Minas gira coração e miolos adentro, em quem é de lá de nascença, por costume ou vitimado de deslumbramento, com seus potes de compota e velas de procissão. Belô dos mares de bares, todas as esquinas convergem conformadas e tímidas para aquela uma, a tal que ganhou mundo e fama. Seguem como devotas na quaresma, essas esquinas comuns que não tiveram clube, passos lentos e testas vincadas prematuramente. Seguem pela Via Crucis de paralelepípedos gastos, com baldeação em Três Pontas, Montes Claros e onde mais passe o trem azul. E reverenciam, de joelhos, o latifúndio patrimônio deste mundo. Esse queijão com um furo no meio que Deus benzeu.
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