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domingo, 16 de setembro de 2018

MELHOR E ETERNO AMIGO



O primeiro cachorro a gente nunca esquece, ainda que o quadrúpede já tenha virado adubo há muito tempo. Tudo bem que existe uma natural transferência da estimação que se tinha ao bichinho para o outro que invariavelmente chega a fim de ocupar seu lugar. Mas o primeiro tende a ser mais especial que os demais, não há como negar isso.

O que pouca gente se dá conta é possibilidade de mantê-lo indefinidamente, mesmo que não seja a rigor o mesmo bicho.

A primeira alternativa é o processo natural, ou seja, a cruza do cãozinho que se deseja perpétuo com alguma fêmea da mesma raça ou muito parecida com o macho. As chances de reprodução e de geração de inúmeras ninhadas dependerá somente das oportunidades de acasalamento. Tendo em vista que cada ninhada produz em geral de quatro a sete filhotinhos, numericamente os descendentes se acumularão em progressão geométrica. Talvez ninguém nunca tenha pensado nisso, mas é perfeitamente possível que dezenas de gerações de uma família tenham como cães de guarda ou companhia dezenas de gerações que descendam do mesmo cachorro. O que daria margem a uma frondosa árvore genalógica canina, tão ramificada quanto a humana.

O congelamento do sêmen também é possibilidade a ser considerada. Um filhote (ou toda uma ninhada) do pet poderá ser gerado no mês que vem ou no século 26, sem maiores problemas. O número de filhotes resultantes da técnica é ilimitada, já que os espermatozoides são armazenados aos milhões. E não têm prazo de validade, se conservados em condições ideais.

A alternativa mais cara e tecnicamente mais complexa é a clonagem. A atriz e cantora Barbra Streisand, por exemplo, fez logo dois clones da sua cadela Samantha, morta no ano passado. Claro que 100 mil dólares, que é o custo do procedimento, não é para humanos vira-latas. Nele, células-tronco do pet são armazenadas quando do seu nascimento ou a qualquer momento de sua vida. Constatada a morte iminente, ou opcionalmente muito antes dela, o clone é gerado e o original conviverá com sua cópia até o desenlace - facilitando a transição para os donos e, porque não dizer, para si mesmo, ao constatar que está indo embora e ficando a um só tempo. O difícil é determinar na pele de quem estará sua consciência, se na matriz ou no dublê... Aí está uma pergunta definitivamente sem resposta.





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domingo, 9 de setembro de 2018

PENÚLTIMA MORADA



- Maluca essa história da morte do coveiro, heim?
- Nossa, nem fala. Sem querer o cara cavou a própria cova. Só de pensar eu fico arrepiado. O buraco já tinha mais de dois metros e meio quando ele teve o piripaque. Parece que foi infarto. Caiu lá embaixo, fraturou o crânio e por ali talvez acabasse ficando, se não sucedesse o imbroglio que veio depois.
- Eu fiquei sabendo meio por alto, não sei de detalhes, não.
- E olha que ele tinha onde cair morto, meu camarada. Aliás, melhor lugar impossível para se cair morto. Uma sepultura perpétua numa quadra nobre do Cemitério da Consolação. Bem no filé mignon, onde só tem celebridade e aquelas dinastias quatrocentonas lá da capital.
- Herança de família?
- Sei lá... eu pensei nisso mas descartei a possibilidade. Se fosse, o cara seria herdeiro de outras coisas, não só o terreno no cemitério famoso. E sendo rico não seria coveiro, muito menos aqui nesse fim de mundo. 
- Lá isso é.
- Quando a fatalidade aconteceu, o defunto da vez estava na boca da cova, esperando pra descer. A família ficou horrorizada com o infortúnio do coveiro já que, ainda que indiretamente, foi por abrir o buraco do ente querido - no bom sentido - que o coitado acabou morrendo.
- É, situação embaraçosa. Mas não deu pra segurar o homem caindo, não teve uma "bambeada" antes de capotar?
- Nada. O cabra deu um grito, levou a mão ao peito e tombou rapidinho. Vai daí que a família confabulou ali mesmo e decidiu enterrar o parente em outro lugar, oferecendo generosamente o túmulo ao coveiro.
- Atitude digna.
- Sim, mas aí descobriram o terreno milionário que ele tinha na Consolação, e acharam que o morto, evidentemente, iria querer ser enterrado lá.
- Óbvio. Imagino que aí tiraram o coveiro da cova e fizeram o traslado para São Paulo...
- Seria o mais lógico a fazer, se houvesse por essas bandas coveiro sobressalente.
- Ave Maria... só tem um na cidade?
- Se médico só tem o Doutor Fernandes, como é que coveiro ia ter dois? Resultado: dois presuntos na fila e ninguém pra enterrar.
- Calamidade mórbida, meu amigo.
- Então... aí tiveram a ideia de encomendar um carro fúnebre vindo de São Paulo. Para remover o coveiro da cova, sepultar o outro defunto no lugar e trasladar o corpo do coveiro para enterrar no Cemitério da Consolação - no túmulo que é dele por direito. 
- Boa! Aí resolvia tudo.
- Mas não demorou e apareceram uns parentes pobres do coveiro, que moram aqui na região. Ficaram sabendo do terreno nobre no campo santo paulistano e resolveram tomar partido e lucrar com a situação. 
- Já estou até adivinhando: chegaram na família do morto oferecendo a sepultura de São Paulo.
- Matou a charada. E pediram um preço absurdo. Fizeram chantagem emocional, dizendo que ficar com a sepultura era o mínimo que a família teria que fazer para se penitenciar da morte do coveiro, que bateu as botas por causa do parente deles. Bom, eu só sei que já são mais de três dias de negociação, debaixo de um sol senegalês. E sem previsão de acordo, por enquanto.
- Nenhuma luz até agora?
- Alguém sugeriu que o padre faça um "cara ou coroa", para decidir celestialmente a parada. O padre concordou, contanto que tivesse a autorização do bispo - que foi operado e está nas últimas, segundo o mais recente boletim médico. 






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Imagem: www.aki.pt/ferramentas/ferramentas


sábado, 1 de setembro de 2018

O ÚLTIMO A SAIR APAGUE A LUZ




Tudo bem, só que o interruptor não funciona e é preciso entrar com um protocolo na concessionária de energia para solicitar uma averiguação, ainda a ser agendada, a fim de determinar a real causa do problema. 

Há apenas três (e não quatro) parafusos fixando o espelho do interruptor na parede - um forte indício para que se cogite crime de apropriação indébita. Suspeitas recaem ainda sobre um certo ex-presidente, que teria se apoderado do referido parafuso semanas antes de deixar o Palácio, escondendo-o em um sítio no interior de São Paulo.

A esquerda argumenta que apagar a luz é ato arbitrário, de natureza unilateral, não condizente com a moderna democracia que o país vem se esforçando por consolidar nos últimos anos. 

A direita rebate de forma veemente a insinuação, afirmando que o problema de mau contato apresentado pelo aparelho se deve à polarização provocada pelas alas mais radicais dos socialistas, fazendo com que o polo positivo e o negativo entrem em curto, causando um apagão ao mesmo tempo energético e ideológico. 

Já o Centro aponta para uma solução conciliadora do tipo “dimmer deslizante”, para que a transição entre a escuridão e a iluminação a plena carga se dê de forma suave e gradativa, sem traumas para a coletividade e preservando nossos mais caros e autênticos valores institucionais. 

Há, entretanto, uma forte corrente apartidária que sustenta não ser possível apagar algo que há muito não está mais aceso, já que o país demonstra crescente inadimplência não só no que diz respeito às suas demandas energéticas, mas também nas contas públicas de gás, água e telefone. 

A verdade é que um apagar geral de luzes produzirá uma nação vulnerável em suas fronteiras e em sua soberania. Nisso concordam todos os analistas políticos e econômicos. A literal penumbra resultante dará ensejo para que milhões de cidadãos cubanos e venezuelanos abandonem seus paraísos de origem, pensando que ao agirem assim estarão retribuindo o bem que nosso "pai dos pobres" fez a Chavez e a Fidel em outros e nebulosos tempos. 

Note-se ainda que uma ONG, de notória tendência esquerdista, já tem engatilhado um instrumento jurídico contestando semanticamente a frase "O último a sair apague a luz". Argumentam os referidos trotskistas de que o termo "último" é segregacionista e discriminatório, por incumbir a uma única pessoa - no caso, a última a abandonar o recinto - uma tarefa que seria de todos. 



Imagem: NASA
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domingo, 26 de agosto de 2018

LINK



I
- Na minha home ou na sua?
- Sugiro um território neutro, pra variar um pouquinho. Um amigo meu tem um desktop desocupado aqui perto. Deixa eu dar uma busca nas imagens pra te mostrar. O papel de parede é lindo. Antes a gente podia saborear uma pasta, que tal?
- Outra? Já são 1651 pastas em Meus Documentos. Por favor, vê se muda o menu principal...
- Tá bom. O guiaderestaurantes.com.br indica lamejorpaella.es, barbecuehouse.com e royalfood.co.uk. O que a senhorita prefere?
- Clica no barbecue.

II
- Detesto ter de dizer isso, mas tem um restinho de pixel escorrendo no canto da sua boca. Disfarça e passa a borrachinha do photoshop.
- Ai que chato. Só agora, depois de baixar a sobremesa, é que você me avisa? Todo mundo deve ter reparado.
- Ué, tô vendo e tô avisando. Sabe, você fica linda com essa cara de quem perdeu laudas de dissertação acadêmica e não tinha backup. Te amo, sabia?
- Repete em caps lock.
- EU TE AMO. Tá bom assim ou quer que ligue as caixinhas de som?
- Grosso insensível. Será que pelo menos uma vez na vida você não poderia...

(cai a conexão)

III
- E aí, tudo bem com você?
- Acho que sim, mas reiniciei como arquivo recuperado. Vão ter que me renomear. É duro depender dos humanos.
- É, gente é bicho estranho. Não vejo sentido no que eles fazem lá fora. Acordam, passam o dia inteiro olhando pra gente, trabalham pra se sustentar, se sustentam comendo, comem geralmente coisas que fazem mal e devolvem tudo horas mais tarde – de um jeito que é melhor nem comentar. Dormem e no dia seguinte começa tudo outra vez.
- De fato, não tem sentido. Assim como não tem sentido eles fingirem que trabalham e ficarem vendo outros humanos nus. Se o chefe não estiver por perto, ficam horas e mais horas olhando essas coisas. Que graça que acham nisso, me diz?
- E eu sei lá... Na dúvida, acesse serhumano.com, pesquise em “Perguntas mais freqüentes” ou baixe em PDF o manual de instruções.

IV
- Ai, Jesus amado. Aquele menino de novo. Com o pacote de bolacha e o copão de coca.
- E pela cara, acordou agora. Deve estar com mais gás que o refrigerante. Aguenta que lá vem tiro, acabou de abrir o Counter Strike.
- Daqui a pouco chega o pai dele.
- É, o cibertrouxa. Se soubesse fuçar no histórico e descobrir o que sua abnegada esposa anda fazendo por aqui, com a webcam ligada...
- Além de corno, tem mau gosto. Reconfigurou a área de trabalho com cores cítricas e berrantes. A tela aqui tá parecendo um uniforme de gari da Vega Sopave. Será que não percebe que isso acaba com a vista dele?
- Vai ver que é por isso que não enxerga o que todo mundo sabe.

V
- Nariz entupido?
- É, acho que algum vírus me pegou de jeito. Se não melhorar, vão me botar na quarentena. Opa, abriram o Word. Quem será?
- Não tenho idéia. Só sei que me irrita profundamente esse cursor piscando o tempo todo pra você, como se estivesse disponível e desacompanhada. Falta de respeito. Vou arremessar esse sujeitinho na lixeira e vai ser agora!
- Calma aí, o cara trabalha no Office, tem influência.
- Ah é? Vai com ele, então.

Erro no módulo Shell32 DLL em 0177. Este texto efetuou uma operação ilegal e será finalizado.


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sábado, 18 de agosto de 2018

MENOS COR, POR FAVOR






Luz ultravioleta revela como eram de verdade as estátuas e construções da Antiguidade Clássica - originalmente pintadas com cores berrantes.

- Olha, seu Augusto, vou falar uma coisa pro senhor... eu posso até estar jogando contra o patrimônio, mas acho que não vai ficar nada bom colocar cor na sua estátua. Eu bem que podia ficar quieto, fazer meu serviço de pintor, pegar meu dinheirinho e ir embora pra casa. Mas, sendo o senhor Imperador de Roma, me sinto na obrigação de alertar, compreende? É quase um dever cívico.

- Ninguém pediu sua opinião. Limite-se a cumprir minhas ordens!

- E digo mais, com todo respeito que lhe devo: o senhor vai ficar parecendo aquelas imagens que tem pra vender em Casa do Norte ou loja de macumba, sabe como é? Escuta o que estou lhe falando, seu Augusto... o resultado vai ficar sinistro!

- Mas deixar assim, só no mármore? Nem pensar. Fico muito pálido, sem expressão. Tenha em mente, meu súdito, que minha intenção é ganhar a simpatia e admiração do povo romano. Sem cor na estátua, ficarei parecendo um cadáver, uma representação inexpressiva.

- Não sei não, Majestade. Parece mais clássico assim. Além do que, se pintar por cima, tem que ter manutenção periódica para evitar a descoloração provocada pelo sol e pela chuva. Dois ou três meses no tempo e fica tudinho desbotado, vai por mim. 

- Poupe seu latim. Não vou mudar de ideia.

- O mesmo vale para os templos. Convenhamos que é bem jacu esse colorido todo né, Gustão? Para o meu gosto, deixar no mármore ficaria chic e atemporal, imune a tendências e estilos. O senhor entende meu ponto de vista? Eu estou pensando lá na frente, daqui a dois mil anos. Imagine o que vão pensar no futuro quando descobrirem o mau gosto que a gente tem hoje?! O seu bom e glorioso nome corre o sério risco de ficar manchado.

- Chega!

- Mas se o senhor insiste em pintar, sugiro tinta branca, só para proteger a pedra. Seu Augusto, vou dar um exemplo para o senhor compreender melhor o que eu digo: imagina um cemitério com as estátuas todas coloridas... ia parecer concentração de escola de samba. Não orna, ficaria uma tremenda parafernália.

- Guardas! Guardas!!!

- Tá bom, Imperador. Vou fazer um teste num pedacinho da sua estátua, para o senhor comparar com o original só no mármore. Vai ficar mais fácil entender na prática o que estou dizendo. 

- Vá lá... faça logo esse teste, então.

- Alea jacta est!



Fonte imagens: opiniaoenoticia.com.br
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domingo, 12 de agosto de 2018

QUEBRA DE SIGILO FRIGORÍFICO



Fruto de esforços conjuntos de três organismos federais, o governo de Pitombas deu início à chamada "Operação Linha Branca".

A diferença desta para outras operações anteriores é que passa a ser considerado, como sinal evidenciador de riqueza - e eventualmente como possível indício de sonegação - o interior das geladeiras domésticas. A depender do que for encontrado dentro do refrigerador, pode-se deduzir se a renda do dono do eletrodoméstico é ou não compatível com aquela declarada ao fisco.

A fiscalização se dará por duas formas. Uma por agentes com mandado judicial para efetuar busca; nesse caso, o contribuinte em questão precisa estar indiciado em algum inquérito. A outra forma será por meio de flagrante fotográfico: pequenas câmeras serão instaladas nas geladeiras e captarão, em dias e horários desconhecidos ao contribuinte, o interior dos equipamentos e os alimentos e bebidas neles conservados.  

A instalação das câmeras será compulsória e se estenderá em etapas regionais, ao longo de cinco anos. O contribuinte que se recusar a abrir as portas de casa e da geladeira aos agentes fiscalizadores será qualificado como suspeito, estando sujeito a penalidades que incluem detenção provisória.

Embora ainda em estágio embrionário, a Operação já vem apresentando resultados animadores. Doraneide Marina da Costa, auxiliar de pedicure, recebeu a visita de fiscais devido à presença, em sua geladeira, de pelo menos quinze quilos de caviar Beluga Petrossian. Além do caviar, considerado um dos melhores e dos mais caros do mundo, foi encontrado um saco plástico de supermercado envolvendo um outro pacote com três outros sacos do mesmo supermercado. Dentro dele, 30.000 dólares em numeração não-sequencial, notas de 100 e 50. Dinheiro literalmente frio, sobre o qual a proprietária da geladeira terá de dar explicações.


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sábado, 4 de agosto de 2018

SEM BACKUP




I



É consenso no mundo da segurança da informação o fato de que as empresas produtoras de antivírus contratam hackers para criar vírus e posteriormente suas vacinas, perpetuando o ciclo de ameaça e proteção. 

O vírus é criado, espalhado, a imprensa se encarrega de fazer o alarde mundial e, enquanto isso, a vacina já está pronta para integrar o pacote da versão 22.4 do mega-ultra-master-magic-killer-fast-ultimate-power-virus-exterminator. O mais seguro de todos os tempos, até que chegue a hora de se criar um outro vírus ainda mais detonador e em seguida seu antídoto invencível, num ciclo criminoso que torna refém toda a humanidade. 

Mas, dessa vez, a coisa não aconteceu como deveria.






II



- Pois é, o que a gente mais temia se confirmou. Óbito, há 20 minutos. 
- Parece humor negro ou ironia do destino, mas ele contraiu um vírus raro. Ainda teve a sorte de durar três meses, o médico garantia que não passava de dois. Doença degenerativa fulminante, sem remédio nem vacina. 
- É, letalidade máxima. Acabou com ele e com uma multinacional de 50 bilhões de dólares numa tacada só! É o que se pode chamar de alto poder de destruição.
- Mas não é possível que não tenha deixado nada escrito na mesa dele. Alguma anotação em algum canto, escondida na gaveta, quem sabe salva em algum insuspeito arquivinho de wordpad?
- Nada aparente, já vasculhamos.
- Sei lá, qualquer coisa que seja uma pista de como ele estava concebendo esse antivírus. Virem tudo de cabeça pra baixo, quebrem todas as senhas do computador que ele usava, usem descriptografia, tragam hackers de fora do país se for o caso... ele não comentou nada com vocês? Nadinha?
- Caladão do jeito que era? Pois sim... Uma vez ele me disse que guardava tudo na cachola, por medida de segurança. O cara tinha um HD de 10 terabytes na cabeça.
- Amiguinhos, eu não quero saber o que fazer e de que jeito precisa ser feito, só quero que mergulhem nessa caixa de gordura e resolvam a encrenca. Dinheiro não vai ser problema! O vírus que esse rapaz criou está derrubando sistema atrás de sistema, o nível de infecção é de quarenta a cinquenta novas corporações por minuto. Se não disponibilizarmos a vacina nos dois ou três próximos dias, estaremos completamente desmoralizados. 
- Tá, e a gente vai fazer o quê? Chamar o cara à força numa sessão espírita? A porcaria do vírus é criação dele, a chance de descobrirmos algo de prático em tempo hábil é zero. Mesmo se a gente conseguisse juntar todos os hackers do mundo, ainda assim a velocidade de infecção vai travar o planeta antes que se chegue a qualquer resultado concreto.
- Então, eu sei que não é o momento apropriado pra ficar falando isso, mas... caramba, quantas vezes eu já disse nas reuniões de Conselho - essses malucos precisam trabalhar em dupla, um fica sendo o backup do outro. Se dá uma caca, tem como recuperar pois há dois profissionais envolvidos no programa.   
- Índice Nasdaq de hoje. Querem ouvir?
- Diga de uma vez, quanto perdemos?
- Até agora, 16h30, -7,2%. Debandada geral de investidores mundo afora. Viramos mico da noite para o dia.
- E o técnico canadense que chegou ontem?
- Ia falar dele agora. Desinfetamos tudo antes que ele começasse a trabalhar, mas a lei de Murphy funcionou de novo... se infectou com o vírus biológico.
- Sei, mas como ele está agora?
- Quadro de febre, vômito e confusão mental. A coisa começou assim com o nosso finado colega. É o início do fim, daqui em diante só vai definhar. 
- Tentou chamar um médico?
- Todos os hospitais estão com sistemas viralizados, pane generalizada até nos serviços de emergência. Mesmo as conexões analógicas de telefonia parecem estar comprometidas.
- Bem-vindos ao apocalipse, meninos. Orem com fervor. Agora, só confiando na volta de Jesus. 




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