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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

BRAVO, MARICAS, BRAVO!!!

 


Força e gratidão aos abnegados maricas, estes heróis anônimos que bravamente perseveram no isolamento doméstico. Que insistem no despropósito de pensar no próximo e na saúde coletiva.

Bravo, maricas, bravo. Ainda que brucutus aparvalhados, com sua retórica de ocasião, desmereçam seu sacrifício logo ao romper da Alvorada, entrincheirados em cercadinhos a defecar nos microfones.

Ainda que inconsequentes sem máscara se aglomerem por raves, bailes funk, botecos, orlas e saldões de ovos de Páscoa. Conscientes do perigo, assassinos e ao mesmo tempo suicidas de caso pensado, espalhadores da praga e receptores do caos.

A vocês, maricas incorrigivelmente desmunhecados, a ordem do mérito por bravura. Por aceitarem o sacrifício do campo de concentração para que napoleões de hospício saiam por aí de arminha em punho, atirando a esmo e à toa com sua pólvora de chabu.

Esta é uma obra de ficção.

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Imagem: <a href=”https://br.freepik.com/fotos/medico”>Médico foto criado por freepik – br.freepik.com</a>


domingo, 1 de novembro de 2020

JOHNNIE E A MOÇA

 



- Boa noite, moça.

- Oi, fortão. Até que enfim este elegante e bem apessoado cavalheiro me dirige a palavra.

- Achei que você não ia querer saber de conversa comigo.

- Um tipão como você com autoestima tão baixa, que desperdício! Quantas moças como eu não dariam cada gota de suas latas para uma chance com você, seu lindo. Só no Atacadão que tem aqui perto são mais de três mil e duzentas.

- Vem sempre aqui no bar?

- Ultimamente não tenho saído da prateleira, assim como você. Com essa pandemia que não acaba nunca, não creio que a gente saia daqui tão cedo, Johnnie.

- Eu ia me apresentar. Como sabe meu nome?

- Tá escrito no rótulo, né? Não sou analfabeta. Já eu sou moça, e é o que basta, moça simplesmente. Não tenho nome, não. Já pensou se tivessem que batizar cada uma de nós?

- Se for por esta lógica, eu tenho milhões de homônimos pelo mundo. Alguns cheinhos, sendo transportados em navios e aviões cargueiros, muitos falsificados, outros pela metade e a maioria no berro. Mas, vamos direto ao ponto: de zero a dez, qual a chance da gente se misturar gostoso naquela coqueteleira ali?

- Eu diria nove. Mas com tão pouca gente no bar, esse mexe-mexe é bem improvável... Na qualidade de moça, eu entro em alguns coquetéis, não vou mentir pra você. Mas sou mais requisitada na mistura com cachaça, vodka, licor de cacau ou conhaque, pra fazer "meia de seda". Uísque geralmente tá fora da receita. Pena, viu.

- Vem cá!

- Vem você... não é você o "walker", o caminhante? Pois mostre que, além de elegante e bonitão, é também um cara gentil. Larga este rótulo quadradinho e vem aqui rodear as minha redondezas. Estou louquinha por um assédio, sabia?











Esta é uma obra de ficção.

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domingo, 18 de outubro de 2020

PROÁLCOOL EM GEL

 


Proálcool em Gel, o novo programa governamental de Buana-Xongas, é lançado e apresentado à imprensa com a pompa e a circunstância dignas do seu protagonismo estratégico em âmbito mundial.



Numa primeira fase de implantação, bilhões de litros de álcool em gel foram utilizados para queimar cem milhões e duzentos mil hectares de matas nativas, na região norte do país. Estas deram lugar a latifúndios imensos de cana, que por sua vez produzirão mais e mais álcool em gel padrão Ultra Max Quality Premium para exportação.



Para o brucutu recém-liberto da Covid, tataraneto do polêmico Presidente Donald (e que aos berros promete, tal qual o tataravô, fazer a América grande novamente, desde que possa continuar contando com o voto do típico ianque comedor de sandwich de pasta de amendoim), trata-se de um momento de gigantesca importância para a raça humana. "Álcool em gel é o elixir da vida e o novo ouro, a ele se rendem - inativados e inofensivos - coronavírus de todas as cepas e mutações. Podem apostar: a partir de hoje, nada e nem ninguém nos deterá. Nossa sólida parceria com Buana-Xongas significará a prosperidade que tanto queremos resgatar".



Em meados do ano passado, após a 192a onda de contaminação multicontinental, que em duas semanas varreu da Austrália o equivalente a 26% de toda a população do Tennessee, líderes do mundo todo anunciavam com alívio o final da pandemia. Na ocasião, quase todo o estoque mundial de álcool em gel consumiu-se na festa de passagem de ano 2134-2135, utilizado para tocar fogo em quatrilhões de máscaras de proteção até então em uso no planeta.



O anúncio foi um grande chabu retórico, como hoje todos sabem. Descrentes do fim do suplício, especuladores visionários estocaram preventivamente algumas centenas de piscinas olímpicas repletas de álcool em gel. Foi a nossa salvação. Não fosse esta pequena reserva, a humanidade não teria como se defender da praga até que o novo Proálcool se implementasse como sistema. Mas, agora sim, podemos ficar tranquilos. Felicitemos uns aos outros, em solidários e saudosos apertos de mão.







Esta é uma obra de ficção.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

NESSES NOVOS DIAS




Eu não vi, mas é como se estivesse vendo agora na minha frente o Marcos Valle, sem camisa e sentado ao piano em uma tarde de sábado de 1971, compondo o tema de fim de ano encomendado pela Globo, com o Nelsinho (em estado, digamos, alterado de consciência) esperando a música ficar pronta para botar letra junto com o Paulo Sérgio, irmão do Marcos.



Música concluída, letra entregue e discussão armada:



- Olha, sei lá, meu... não é melhor "nesses lindos dias" do que "nesses novos dias"?



O Nelson se defende.



- Mas eu falo dos dias que estão por acontecer. Não enche o saco, Marcos.



- Sei não, olha só, tem "novo dia" no primeiro verso, no segundo tem "novo tempo", depois vem "novos" de novo? É muito "novo" pra uma letra só, se você trocar por "lindos" fica bom do mesmo jeito e não repete tanto.



Eu vi, um ano antes, sentado num pufe e abraçdo a um bambi de pelúcia, noventa milhões em ação botando o Brasil pra frente. Aqueles mexicanos com seus sombreros invadindo o gramado de Guadalajara. Sem saber direito o que estava acontecendo e em preto e branco, com um plástico azulado por cima da tela, pra dar um certo gostinho de TV colorida - coisa que só chegaria pra valer na Terra de Santa Cruz em 72, 73. E apenas nas vitrines das lojas chiques, onde o povo se amontoava à noite, boquiaberto. Lembro que tinha até pipoqueiro na esquina e rádio patrulha rondando, no caso de haver confusão. Estes poucos aparelhos, quando saíam do mostruário, iam para as casas dos muito, mas muito ricos mesmo.



Eu vi a Lolita e o Airton segurando uma bandeja, com um porco assado de maçã na boca, fazendo merchan da Cantina Don Ciccilo ao lado do Carlos Imperial - bebendo uísque e fumando, em pleno programa vespertino. Sendo que o merchan era pura permuta - o restaurante entrava com o rega-bofe para os artistas todos do "Almoço com as Estrelas" e o apresentador fazia o testemunhal. Zero de dinheiro envolvido!



Eu vi o Silvio Santos apresentando o "Só compra quem tem" e falando com seu irmão Léo pelo telefone, dizendo que "prêmios, prêmios, prêmios o Baú agora dá". Pelo menos em 50 desses 70 anos que a TV faz agora, alguns flashes marcantes deixaram registro nesta caixola abarrotada. Coisas que aos poucos vão deteriorando. Como as fitas de videotape que ainda restaram, salvas dos incêndios da Record, da Globo, da Tupi, da Excelsior.



Eu vi, sim. E é quase certo que não trocaria o que vi, fragmentos que guardo em caixinhas de veludo dentro de um cofre de aço, pelas décadas que um garoto de 15 de hoje tem pra ver. Prefiro reter o pouco que possuo entre uma dobra e outra dos miolos, mesmo que nada disso exista mais, do que partir, titubeante, rumo ao que esse menino teria pela frente. Pra que eu fizesse uma troca dessas, precisaria ter muita vantagem envolvida. Vantagem grande, de respeito. Talvez uns 150 anos de bônus por aqui. E isso se eu tivesse certeza que o "aqui" continuaria existindo em 2170, evidentemente.







Esta é uma obra de ficção.

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Imagem: https://observatoriodatv.uol.com.br/





domingo, 4 de outubro de 2020

NO AR, O MAIS ÍNTIMO DOS REALITY SHOWS




Ao contrário da mecânica habitual, o novo reality show não terá a participação de pessoas que não se conhecem e que se reúnem para se amarem ou se odiarem sob o mesmo teto. Será protagonizado por moradores de um quarteirão inteiro, que convivem comunitariamente há anos ou décadas. Vizinhos que têm laços muito próximos ou que não se conhecem quase nada, mas que têm em comum o fato de habitarem a mesma quadra.



Os moradores e famílias participantes deverão adivinhar qual a identidade do vizinho que em determinado programa terá sua intimidade devassada pela divulgação de seu extrato bancário, de seu varal de roupas e do lixo que produz.







PROVA NÚMERO 1 - DE QUEM É O EXTRATO?

Como todo extrato de banco, será pormenorizado - detalhando o saldo do dia em que foi impresso, quais as quantias gastas nos 30 dias anteriores e em que produtos e serviços. Enfim, espelhando fielmente as despesas que o vizinho "misterioso" teve.



PROVA NÚMERO 2 - DE QUEM É O VARAL?

De um sisudo suéter a uma calcinha insinuante, adquirida em sex shop. Tudo pode aparecer no momento em que o fotógrafo do programa bater à porta do morador da vez. Se o participante correr para o quintal a fim de deixar o seu varal publicável será automaticamente eliminado da competição.



PROVA NÚMERO 3 - DE QUEM É O LIXO?

A produção do programa isola o quarteirão para, logo nas primeiras horas da manhã, coletar - antes dos lixeiros - o saco de lixo de determinada família. Sem cortes ou edições, o saco será aberto ao vivo, dando publicidade nacional ao que de mais indevassável o participante pode ter: a sua privacidade doméstica.



A partir destas revelações - o extrato bancário, as roupas do varal e os dejetos do cotidiano, os participantes tentarão adivinhar a identidade do morador. Ganha o reality show quem mais acertos obtiver em seus palpites. A emissora informa que em breve abrirá inscrições para os quarteirões interessados em participar da primeira edição do programa.





Esta é uma obra de ficção.

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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

QUE COISA?

 


As coisas estão deixando de existir. É sólido, gasoso, líquido e certo o extermínio da matéria - pelo menos com a serventia ou os usos vários que costumava ter.



Até há pouco, comprava-se qualquer coisa com uma coisa chamada dinheiro. Agora compra-se uma série de não-coisas (quase tudo é digital ou impalpável) e paga-se com um negócio que não é mais coisa: transferência eletrônica, pix ou que outro nome inventem de dar para a coisa. Esta moeda esquisita que a bem dizer inexiste, pois passa de um para outro sem que ninguém a veja, a toque, sinta seu peso ou a guarde debaixo do colchão.



"Coisa" talvez seja o vocábulo mais flexível da língua, é tudo aquilo que nos falta o termo quando queremos nomear alguma coisa. O equivalente ao "stuff" inglês. What is this stuff? O que que é esta coisa? Um verdadeiro coringa do vernáculo. E se alguém não fala coisa com coisa, tudo bem: este alguém não estará sozinho. Pelo contrário, estará em companhia ilustre. Esta coisa que está aí na presidência e aquela outra coisa, que se achava presidenta, também não falavam nem falam coisa que se aproveite.



A coisa, ou a falta dela, não para por aí. Não é preciso mais uma outra parte interessada para que alguém faça sexo, por exemplo. Não se requer mais coisa nenhuma. Não falo do sexo solitário, coisa que sempre existiu, e sim dos corpos-pixels a promoverem surubas, coisa que é de agorinha. Que coisa, não?



E quer saber de uma coisa? Se o próprio Deus, que fez todas as coisas, não tem forma de coisa alguma, que coisa há de resistir? Resta seguir em frente e amá-Lo. Sobre todas as coisas.





Esta é uma obra de ficção.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

PREPAREM OS ROJÕES: TEMOS TUDO A COMEMORAR!


 


Nem é preciso comentar o quanto a pandemia afetou o mercado de eventos. Debelado o surto, entretanto, o segmento promete ir à forra, fazendo festa até por ocasião de datas pouco exploradas no calendário promocional.



Começando por 4 de janeiro, o Dia Nacional da Abreugrafia - exame criado por um médico brasileiro para detectar a tuberculose no processo de admissão de novos funcionários. Como o exame não existe mais, a data também foi, compreensivelmente, relegada a certo esquecimento. Uma injustiça, ainda a tempo de ser reparada.



Dia 7 é a vez do mecânico de manutenção de aeronaves fazer uma pausa para brindar, com seus pares, o valor de seu insubstituível trabalho. A depender do ano, pode-se muito bem fazer uma "ponte", emendando a folga com o Dia Estadual do Juiz Eclesiástico de Paz, que acontece 72 horas depois.



Já no Dia da Imprensa Filatélica, a previsão é de um rega-bofe alusivo às milhares de publicações que enchem as bancas e salvam do vermelho nosso sofrido mercado editorial, todas elas dedicadas ao fabuloso universo dos selos. Na ocasião, um baile costuma ser promovido na sede de campo da ABRAJOF - Associação Brasileira de Jornalistas Filatélicos, entidade sediada em Ribeirão Preto (abrajof.wordpress.com). A propósito, há controvérsias se a Associação reúne jornalistas que produzem matérias sobre filatelia ou se são apenas jornalistas colecionadores de selos. A diferença é grande, convenhamos, e desta distinção com certeza dependerá o destino da humanidade.



Em fevereiro temos, com intervalo de uma semana entre uma data e outra, o Dia da Roupa de Baixo (no qual cuecas e calcinhas deixam os varais para, em passeata, exibirem suas cores e formatos em praça pública) e o Dia do Surdo-Mudo - sobre o qual pouco se tem falado ou ouvido.



Prosseguindo, chegamos a março e encontramos o Dia do Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil. Mas poderia ser também o dia da perda de fôlego, de tão longo que é o nome da efeméride. Até terminar de enunciar a data comemorativa já estaremos no dia seguinte, e a comemoração terá passado em brancas nuvens.



Em 17 do mesmo mês, brinda-se ao Dia do Fã. E como há fãs para tudo neste mundo, teremos festa no fã-clube dos que adoram ser fãs de alguma coisa e indiferença no fã-clube dos que odeiam e boicotam comemorações.



Março termina sob efeito da Anestesia Geral, cujo dia é comemorado em 30 daquele mês. Não por acaso: o dia 30 costuma encontrar todo mundo sem dinheiro para fazer nada. O que explica a pasmaceira geral até que vire o mês e caia algum na conta. É preciso aqui deixar claro que o Dia da Anestesia Geral é festejado globalmente, ao passo que o Dia da Anestesia Local é ponto facultativo em alguns municípios isolados.



Abril começa com o famigerado Dia da Mentira, e você dirá que é mentira minha que se comemora, na mesma data, o Dia do Tomate. Algumas fontes não muito confiáveis informam que o dia correto alusivo ao legume é 1 de fevereiro, mas apuramos que é mentira.



E o ano prossegue com um vasto rol de oportunidades. Para citar apenas algumas, temos o Dia do Pracinha Paranaense, o Dia do Parque de Diversões, o Dia Mundial dos Discos Voadores, o Dia do Dedo do Meio e o Dia Municipal da Luta de Braço - este comemorado apenas em Belo Horizonte.



Ah, também não dá pra esquecer o 22 de setembro - Dia Mundial de Combate ao Mau Hálito. E, não que uma coisa seja necessariamente consequência da outra, mas logo em seguida temos do Dia da Tia Solteirona.



Para quem quiser conferir, todas estas datas comemorativas realmente existem e muitas delas estão listadas aqui: https://www.janela.com.br/guia-do-mercado/calendario_promocional.html.



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