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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

DA SÉRIE PARANOIAS PANDÊMICAS - A IMUNIZAÇÃO

 


Para começo de conversa, quero deixar bem claro aos senhores: a vacina boa aplicaremos em nós mesmos, digníssimos membros pertencentes à bancada. Depois, imunizaremos nossos familiares os correligionários, os cabos eleitorais e aqueles eleitores de nossas bases que sejam formadores de opinião, ou, como se diz hoje, influenciadores.



Os frascos vazios nós encheremos de água e aplicaremos no povaréu. Aí está o pulo do gato. Antes deixaremos bem claro para a opinião pública que compramos toda a produção da vacina daquele governador lá. Aquele, o inominável, compreendem?



Nesse meio tempo, a nossa central produtora de fakes espalha o boato de que fomos obrigados a comprar a vacina com superfaturamento, caso contrário não nos venderiam. Isso já vai ser um escândalo para o governador inominável, diremos que aceitamos o sobrepreço para que a população não morresse. Com isso, esquentamos uma boa grana, saímos da história como salvadores da Pátria e sujamos para os opositores.



A população, supondo-se imunizada, vai aglomerar muito. Vai aglomerar com gosto, para tirar o atraso. Acontece que, como teremos aplicado injeções de água, vai morrer gente adoidado. E colocaremos a culpa no governador inominável – afirmando que estávamos certos quando dizíamos, há muitos meses, que a vacina dele não prestava, mas que tivemos que comprar por ser a única disponível em quantidade suficiente. Sairemos do episódio como vítimas do calça justa, que cairá em desgraça.



Em seguida, entramos no Congresso com um pedido de verba suplementar emergencial para adquirir uma outra vacina no mercado internacional, que realmente funcione. Como vai funcionar, pois desta vez aplicaremos a vacina de verdade, nosso capetão será glorificado e louvado do Oiapoque ao Chuí. Enquanto isso o inominável pouco a pouco se tornará uma vaga lembrança, um capítulo negro e esquecível na história deste país.







Esta é uma obra de ficção.

© Direitos Reservados



sábado, 23 de janeiro de 2021

ENCONTRO DOS BRAÇOS FORTES

 



- Sinceramente, não consigo entender como nos confundem. Sou loiro, minhas roupas de astronauta são claras como uma lua cheia. Você é negro e geralmente está de terno escuro. Precisa estar muito cego ou ter tomado todas, em algum jazz club de New Orleans, pra confundir a gente.

- A confusão é por conta do "Armstrong". Com exceção da origem norte-americana, nós não poderíamos ser mais diferentes.

- Literalmente, Armstrong quer dizer "braço forte". Isso explica muita coisa, meu caro. Inclusive o fato de ter fincado tão firme a bandeira americana lá no solo lunar. Que momento mágico, que orgulho...

- Ouvi falar que está lá até hoje.

- É. Mas quando é hoje, heim? Há quanto tempo estamos aqui, vagando por estas plagas celestes? Acho que você morreu alguns anos antes de mim, Louis.

- Foi. Agora, cá pra nós: nessas cápsulas do tempo que - comenta-se - a Nasa andou mandando pro espaço, cheias de coisas geniais criadas pelo homem, tem alguma gravação minha? Não me deixaram de fora, né?

- Não sei te dizer, Louis. Até porque essa missão não foi minha. O que eu sei é o que todo mundo sabe. Essas fotos, discos, objetos, filmes, utensílios são itens que, se algum extraterrestre achar um dia, vai saber o que de melhor fizemos durante um certo tempo.

- Diz pra mim, quando você estava lá na lua, admirando a Terra azulzinha, não deu vontade de cantar aquela canção que eu gravei, "What a wonderful world"?

- Até cantaria, Louis. É tão linda, né? O momento era bem propício, mas acho que em 1969 você ainda não tinha gravado esta música.

- Tinha sim. O disco é de 1968.

- Tá certo. Ô xará, posso te pedir uma coisa?

- Fala, Neil.

- Toca aí "Fly me to the moon"... pra lembrar dos velhos tempos.



Esta é uma obra de ficção.

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domingo, 13 de dezembro de 2020

REVIRANDO PAPÉIS, BANHAS E TRANQUEIRAS

 





O Papel, de perfil, juro mesmo: era invisível. Definitivamente, o menino não era chamado pra formar barreira em cobrança de falta.



A poucas casas do Papel, do lado direito de quem subia a Rua Prudente de Moraes, morava o Meio. Ou melhor, o Meio Quilo, antes que a molecada abreviasse o apelido. Como dá pra deduzir, o Meio poderia ter tudo, menos obesidade mórbida.



No extremo oposto do bullying mirim, tínhamos o Banha e o Quilão, sendo que este último chamava-se Aquiles, o que dava ao apelido ainda mais propriedade. Para contextualizar os tipos físicos sem ofender, digamos que ambos pagariam por dois ou mais assentos em um voo da classe econômica. O Banha era famoso pelas redondezas (sem trocadilho), em razão de sua imensa coleção de catecismos do Carlos Zéfiro, que circulavam por empréstimo e eram disputados a tapa naqueles idos de 74, 75.



Não muito longe dali morava o Zé Muié, menino já com seus quatorze anos e cuja munheca era um pouco menos rígida que o da maioria dos machinhos da turma.



Eu mesmo já fui o Pantera, por obra e graça de uma camiseta com a figura da Pantera cor-de-rosa. Meu irmão, dois anos mais novo, virou o Panterinha pois tinha uma camiseta igual. Isso alguns anos antes de virar Lagartixa, sabe Deus por quê.



Beirando o escatológico, impossível não lembrar (sem muita saudade, evidentemente) do bom e velho Ranho. Não pela pessoa em si, mas certamente pelo que lhe escorria pelo nariz 24 horas por dia.



Finalizo com o Tranqueira, que por inspiração ou não do apelido acabou enveredando pelo mundo do crime. Que suas condenações sejam leves, meu caro. Nada me tira da cabeça que, no fundo, no fundo, você parecia ser boa gente.











Esta é uma obra de ficção.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

RAPID CHRISTMAS

 


Uma aceleradinha mais forte e eu não pegava o sinal fechado, e esse é de 60 segundos. Mas tudo bem, um minuto a mais ou a menos de atraso não é o que vai fazer diferença. Já devem ter ligado pra central do aplicativo reclamando da demora.



Haja máscara para ficar pondo, tirando e trocando nesse calor senegalês. Mas tudo bem, se na hora da entrega eu não tirar o capacete, tanto faz. Estão todos sempre com fome. Estão todos sempre com pressa. Querem se livrar rapidinho de mim, essa ameaça móvel de Covid-19. Fazem aquela cara de nojo na hora de digitar a senha na maquininha, um nojo que a máscara não disfarça. Não pegam nem o comprovante da operação, para evitar tocarem em algo mais vindo de mim. Já chega a encomenda, é o que devem pensar.



Chuva no lombo, mas tudo bem. Papai Noel costuma enfrentar neve. Tá suave na nave. O trenó tem rena, moto tem cavalo. Para de chorar de barriga cheia, olha no retrovisor e vê que tem gente pior que você. Agradecer sempre. Obrigado por mais um dia. Gratidão.



R$ 86,75 hoje. Vou pedir um franguinho assado, para o almoço do dia 25 não passar completamente em branco. O raio do sistema é tão bacana que é capaz de me acionar pra levar o frango a mim mesmo. Mas tudo bem, é o que chamam de magia do Natal. Algum colega conhecido vai aceitar a corrida. Quando der de cara comigo vai me chamar de folgado, mas tudo bem. Quero sentir o gostinho de receber ao invés de entregar, deve ser muito bom isso. E ai do motoqueiro se demorar muito.





Esta é uma obra de ficção.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

BRAVO, MARICAS, BRAVO!!!

 


Força e gratidão aos abnegados maricas, estes heróis anônimos que bravamente perseveram no isolamento doméstico. Que insistem no despropósito de pensar no próximo e na saúde coletiva.

Bravo, maricas, bravo. Ainda que brucutus aparvalhados, com sua retórica de ocasião, desmereçam seu sacrifício logo ao romper da Alvorada, entrincheirados em cercadinhos a defecar nos microfones.

Ainda que inconsequentes sem máscara se aglomerem por raves, bailes funk, botecos, orlas e saldões de ovos de Páscoa. Conscientes do perigo, assassinos e ao mesmo tempo suicidas de caso pensado, espalhadores da praga e receptores do caos.

A vocês, maricas incorrigivelmente desmunhecados, a ordem do mérito por bravura. Por aceitarem o sacrifício do campo de concentração para que napoleões de hospício saiam por aí de arminha em punho, atirando a esmo e à toa com sua pólvora de chabu.

Esta é uma obra de ficção.

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Imagem: <a href=”https://br.freepik.com/fotos/medico”>Médico foto criado por freepik – br.freepik.com</a>


domingo, 1 de novembro de 2020

JOHNNIE E A MOÇA

 



- Boa noite, moça.

- Oi, fortão. Até que enfim este elegante e bem apessoado cavalheiro me dirige a palavra.

- Achei que você não ia querer saber de conversa comigo.

- Um tipão como você com autoestima tão baixa, que desperdício! Quantas moças como eu não dariam cada gota de suas latas para uma chance com você, seu lindo. Só no Atacadão que tem aqui perto são mais de três mil e duzentas.

- Vem sempre aqui no bar?

- Ultimamente não tenho saído da prateleira, assim como você. Com essa pandemia que não acaba nunca, não creio que a gente saia daqui tão cedo, Johnnie.

- Eu ia me apresentar. Como sabe meu nome?

- Tá escrito no rótulo, né? Não sou analfabeta. Já eu sou moça, e é o que basta, moça simplesmente. Não tenho nome, não. Já pensou se tivessem que batizar cada uma de nós?

- Se for por esta lógica, eu tenho milhões de homônimos pelo mundo. Alguns cheinhos, sendo transportados em navios e aviões cargueiros, muitos falsificados, outros pela metade e a maioria no berro. Mas, vamos direto ao ponto: de zero a dez, qual a chance da gente se misturar gostoso naquela coqueteleira ali?

- Eu diria nove. Mas com tão pouca gente no bar, esse mexe-mexe é bem improvável... Na qualidade de moça, eu entro em alguns coquetéis, não vou mentir pra você. Mas sou mais requisitada na mistura com cachaça, vodka, licor de cacau ou conhaque, pra fazer "meia de seda". Uísque geralmente tá fora da receita. Pena, viu.

- Vem cá!

- Vem você... não é você o "walker", o caminhante? Pois mostre que, além de elegante e bonitão, é também um cara gentil. Larga este rótulo quadradinho e vem aqui rodear as minha redondezas. Estou louquinha por um assédio, sabia?











Esta é uma obra de ficção.

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domingo, 18 de outubro de 2020

PROÁLCOOL EM GEL

 


Proálcool em Gel, o novo programa governamental de Buana-Xongas, é lançado e apresentado à imprensa com a pompa e a circunstância dignas do seu protagonismo estratégico em âmbito mundial.



Numa primeira fase de implantação, bilhões de litros de álcool em gel foram utilizados para queimar cem milhões e duzentos mil hectares de matas nativas, na região norte do país. Estas deram lugar a latifúndios imensos de cana, que por sua vez produzirão mais e mais álcool em gel padrão Ultra Max Quality Premium para exportação.



Para o brucutu recém-liberto da Covid, tataraneto do polêmico Presidente Donald (e que aos berros promete, tal qual o tataravô, fazer a América grande novamente, desde que possa continuar contando com o voto do típico ianque comedor de sandwich de pasta de amendoim), trata-se de um momento de gigantesca importância para a raça humana. "Álcool em gel é o elixir da vida e o novo ouro, a ele se rendem - inativados e inofensivos - coronavírus de todas as cepas e mutações. Podem apostar: a partir de hoje, nada e nem ninguém nos deterá. Nossa sólida parceria com Buana-Xongas significará a prosperidade que tanto queremos resgatar".



Em meados do ano passado, após a 192a onda de contaminação multicontinental, que em duas semanas varreu da Austrália o equivalente a 26% de toda a população do Tennessee, líderes do mundo todo anunciavam com alívio o final da pandemia. Na ocasião, quase todo o estoque mundial de álcool em gel consumiu-se na festa de passagem de ano 2134-2135, utilizado para tocar fogo em quatrilhões de máscaras de proteção até então em uso no planeta.



O anúncio foi um grande chabu retórico, como hoje todos sabem. Descrentes do fim do suplício, especuladores visionários estocaram preventivamente algumas centenas de piscinas olímpicas repletas de álcool em gel. Foi a nossa salvação. Não fosse esta pequena reserva, a humanidade não teria como se defender da praga até que o novo Proálcool se implementasse como sistema. Mas, agora sim, podemos ficar tranquilos. Felicitemos uns aos outros, em solidários e saudosos apertos de mão.







Esta é uma obra de ficção.

© Direitos Reservados